quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

E depois do S. Valentim, o que vem?


Li por aí uns quantos excertos que pediam, a todo o custo, que se vivessem os restantes dias como normalmente se vive o décimo quarto do segundo mês do ano. É verdade. Fomo-nos deixando levar por dias fantasiados de temas, mas a verdade é que não podemos negar que gostamos. Gostamos, principalmente, de amar. E dias para valorizar ainda mais? Venham eles.
É verdade, devia ser sempre. O S. Valentim devia sobrevoar em nós todos os dias, todas as horas, todos os minutos. Mas temos de lhe dar um descanso – que sejamos nós o nosso próprio S. Valentim.
Foi mais ou menos como nos filmes, tirando o facto de que as nossas vidas nunca são tão perfeitas como lá – mas assemelham-se. Apareceste de repente, quando menos esperava, e viraste-me o universo (porque o mundo é pouco) de cabeça. As cores dos dias mudaram: passaram de um tom mais invernoso para outro mais vivo e forte – mostraste-me as verdadeiras cores. O céu deixou de ter um tom azul-escuro para ser brilhante e ofuscante, tal como nos dias de verão. O sol queima-me mais as bochechas e o frio, esse, foge de rompante de cada vez que te aproximas. As horas passaram a ter outro significado porque começaram a rastejar como caracóis durante uns dias, e a correr como lebres noutros. No entanto, cada minuto tem um sabor doce e que parece permanecer na boca durante dias a fio.
E depois do S. Valentim, o que vem? Vens tu, a tua vida, as tuas qualidades, os teus defeitos, os teus pensamentos, os teus sentimentos e emoções, o teu coração, a tua mão, as tuas palavras, os teus silêncios, os teus medos e dúvidas, o teu passado, o teu presente e o teu futuro. E tudo aquilo que mais queiras trazer. Temos espaço para guardar isso e muito mais.
Antes do S. Valentim, já tinhas chegado.

E depois dele, o que vem? Tu. Que permaneces. Sempre.

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

In the Dark

            Perdera-se onde não havia mais rumo. A neblina tapara-lhe a vista, não existindo uma luz que ela pudesse seguir para se salvar do abismo para o qual se atirou como um peso morto. Ela sabia que a culpa era sua. Que ninguém a empurrara. Ela própria foi-se arrastando, segundo a segundo, até perder o equilíbrio e ser engolida por aquela escuridão – mas sentia-se estranhamente confortável. Como se conhecesse aquele local. Será possível sentirmo-nos em casa, quando estamos no meio do nada, numa miséria emocional?
            Deitou-se no chão, rendendo-se ao nevoeiro que sentia entrar-lhe pelos poros e apoderar-se do seu corpo. A escuridão começava a fazer-lhe cócegas no peito, tentando entrar pelo seu coração. Foi aí que ela se apercebeu. Já tinha estado ali antes: não há muito tempo, mas não se lembrava como tinha escapado. Só que o tinha conseguido. O seu astral já virado para a desistência mudara rapidamente e, mesmo ela não tendo reparado, um brilho acendeu-se na sua alma. Levantou-se mais rápido que o vento que sopra em dias invernosos e desatou a correr – para todo o lado, qualquer lado, nenhum lado. Correu até o fôlego lhe roubar forças e cair de joelhos no chão, inspirando e expirando de forma agressiva. Queria sair dali. Não queria mais uma vez deixar-se levar pelo medo, pelas angústias e pela tristeza que a levaram a atirar-se para o buraco negro. Precisava de fugir, mas não sabia como; precisava de gritar um socorro, e nenhum ar lhe saía dos pulmões. Como é que me deixei abater por estes sentimentos malditos?, questionava-se consecutivamente. Pôs as mãos à cara, e mesmo sabendo que nem ela própria se ia conseguir ouvir, gritou. Chorou. E lembrou-se. Recordou aquilo que a prendia à sua vida, o mais importante de tudo que, por momentos, se esqueceu: amar. Percebeu que bastava agarrar-se a isso e tudo o resto iria parecer ínfimo. Era difícil, claro. Ela sabia-o. Parecia muito mais fácil na teoria do que na prática, mas foi este simples pensamento, que lhe abriu uma porta. Olhou para cima e conseguiu ver o céu – o seu tão precioso céu, aquele a quem contava as suas amarguras e vitórias, o espelho no qual se via todas as manhãs ao despertar, e todas as noites antes de adormecer.
            Acordou repentinamente na sua cama. Sentia que lhe tinha saído um peso do peito, e tinha objetivos bem definidos na sua cabeça. Vestira-se, arranjara-se, e decidira sair à rua. Antes de o fazer, foi à caixa de correio: uma carta. Uma carta de quem menos esperava. 
               Aí compreendeu,
                                                                                              que o amor a elevara até ao céu.


segunda-feira, 5 de setembro de 2016

03/09/15: Liège


                 Hoje o dia amanhece mais triste. Com a certeza de que deixo muito, ainda que temporariamente, e com medo do que possa encontrar. O dia começa com uma dor comichosa na barriga e um aperto à volta do peito. A maioria das despedidas estavam feitas e a máquina gigante esperava-nos. O destino não me era desconhecido por completo, mas a incerteza deixa-nos sempre com um pé atrás. Vai ser rápido, dizia de mim para mim. Vai passar num abrir e fechar de olhos, tentava convencer-me. Eu preciso disto, e isto sabia certamente. O meu coração vivia numa bipolaridade frenética: empurrava-me para terras belgas mas, ao mesmo tempo, queria permanecer no território lusitano. Mas, tal como dizem por aí, só se vive uma vez. Respirei fundo e fui. Depois de tanto sofrimento, chego e começo a viver cada minuto. O que é certo é que o dia anoiteceu mais feliz.
                Aconteceu. Foi tudo tão rápido, que mal tive tempo de piscar os olhos – sem dar por elas, as pessoas apareceram. Os momentos ocorreram. As memórias ficaram guardadas. As aprendizagens foram interiorizadas. As aventuras vividas. O tempo, foi passado. Aprendi a viver olhando as coisas numa perspetiva diferente, e cada pessoa e cada momento acrescentou algo em mim. Depois de cinco rápidos – mas estranhamente longos – meses, senti que tinha mudado. Por tudo o que vi e conheci, pelas conversas traduzidas em mil idiomas, pelos hábitos diferentes de cada um, pelos problemas enfrentados, pelas alegrias, pelas dúvidas, pelos medos, lágrimas, sorrisos e gargalhadas. Eu mudei e tenho a certeza que se tivesse decidido dar um passo atrás, hoje não seria a mesma pessoa. No dia que me vim embora, mais uma vez o meu coração vivia numa bipolaridade frenética; mas desta vez, completamente virado do avesso: empurrava-me para terras lusitanas mas, ao mesmo tempo, desejava continuar no território belga. E a vida é mesmo assim. Leva-nos a lugares maravilhosos mas, repentinamente, decide que está na hora de irmos embora. De seguirmos outras direções. De continuarmos o nosso caminho. E o que é certo é que, estando tão longe de casa, parece que estamos a viver numa vida paralela à nossa… Um antídoto para quem vivia num rodopio de emoções.
                Sei, agora, que sempre que quiser terei um cantinho para onde fugir ou uma memória a recorrer sempre que quiser abstrair-me. O rio, a praça, os bares, a cerveja de mil e um sabores, os amigos de cada canto do mundo, a rua de minha casa, os gauffres, a neve, as viagens. 
                Hoje, sim, o dia amanhece mais triste. Passou-se um ano. Dava tudo para viver novamente aqueles meses mas, infelizmente, não é possível. O meu tempo terminou e só me resta sorrir enquanto encosto a cabeça na almofada porque hoje, sim, o dia também anoitece mais feliz. Tudo aquilo aconteceu. 


Foto: © Paul Voestermans 

segunda-feira, 4 de julho de 2016

Running Away

           

           Ela tentava fugir àquilo que sentia, mas de cada vez que parava pelo caminho para descansar e respirar fundo, o sentimento assolava-a como um trovão: deixava cada pêlo eriçado, o coração a palpitar freneticamente, as entranhas a contorcerem-se e os pensamentos a mil. Quando isso acontecia, ela voltava a correr como se a sua vida disso dependesse, de maneira que todas essas sensações eram deixadas para trás, apesar de ela ter a certeza que, da próxima vez que voltasse a parar, elas iriam apanha-la. Esta era uma corrida na qual ela não tinha qualquer hipótese de vencer. Era inevitável. O seu principal objetivo era, simplesmente, fugir para o mais longe que pudesse daquele sítio, daquele espaço no meio da terra, do perímetro no meio de um mundo tão grande. Tinha esperança que, a quanta mais distância estivesse de lá, menos os sentimentos a abalariam, e talvez conseguisse sobreviver. Nunca foi muito boa com sentimentos até ter que os encarar realmente de frente.
            De cabelos ao longo do corpo com uns jeitos emaranhados atrás das orelhas, pele cor de névoa e olhos de infinito, estava ela ali sentada. Não sabia o que a esperava e muito menos quem a esperava. Nunca estamos preparados para nada até termos que lidar com a realidade. Olhava para o além, e pensava em alguém. Alguém esse que, ultimamente, decidira tanto lhe oferecer um cravo, como lhe dar uma ferradura; era incompreensível para a maioria do mundo, mas totalmente compreensível para ela. Conheciam-se e ela, no meio de tanta incerteza que lhe toldava o pedaço de alma que lhe pertencia, tinha tanta certeza. Passava o tempo a imaginar o possível e o impossível, a escrever histórias na sua mente que faziam o coração remoer-se de desejo, e a pensar, ao mesmo tempo, que devia apagar tudo aquilo do seu pensamento – tinha por hábito considerar que se pensasse muito em algo bom, isso nunca iria acontecer. Era um karma estranho. Mas era também inevitável. E ela sabia-o.
            Com o seu jeito tão característico e caminhar orgulhoso, ele aproximou-se. Tinha noção que fazia parte dos seus sonhos faz tempo e, lá no fundo, apesar de não lhe contar, também sonhava com ela. Constantemente. Mas teimava em deixa-lo escondido, com medo de a perder, com medo de se perder. Avistou-a logo que sentiu o seu perfume, e foi-se aproximando. Nenhum dos dois sabia o que ali ia acontecer. Ele caminhava, com um nervoso miudinho a bater-lhe no peito, mas com um rosto impenetrável. Ela, sentada, no seu mundo, não se apercebia da sua presença, ainda que se sentisse constantemente ligada a ele. Passo. Passo. Passo.
            Sentiu alguém tocar no seu ombro. Olhou para trás.
            Foguetes. Estrelas. Música. Borboletas. Tudo. Nada.

         É difícil ser esbofeteada por tamanha força de sentimentos, quando não se sabe muito bem como lidar com eles. Em pensamento, tentava fugir. Fisicamente, ficou.
            Sempre.


segunda-feira, 27 de junho de 2016

De cor



À tua volta surge uma penumbra de dúvidas, medos e desejos. Acima de tudo medos, mais importante que tudo desejos. Por mais que tentes dar ar de pouco importado, haverá sempre uma parte de ti que o desmente. Conheço-te e sei disso. Estás marcado nos caminhos que percorrem a palma da minha mão e permaneces moldado no meu abraço. É por isso que teimo em puxar-te para mim, onde pertences, onde ficarás bem. Recolhe-me no teu peito, não me deixes ir por caminhos que não vão ao teu encontro e eu prometo cuidar de ti. Sei-te de cor, e isso basta-me.
O mundo parece-me estranho se me tentar esquecer da tua existência e as cores que constroem o dia começam a ser em tons de cinza (apesar de gostarmos tanto desses tons tão nossos); permite-me que te apazigue a dor que teima em gritar de cada cicatriz tua, e deixa-me junta-las às minhas: marcas com marcas, histórias com histórias.
Quero-te exatamente como és.

Sei-te de cor, e isso basta-me. Porque és muito mais do que te pintas.

sábado, 2 de abril de 2016

Lights & Darkness

                

                Puseste-me ao teu bolso sem eu me aperceber disso. Escondeste-me lá durante anos, sem eu saber onde estava. No meio da escuridão, perdi-me em pensamentos, em sentimentos, em lágrimas e sorrisos. Nunca, em momento algum, soube que ali estava. Fui vivendo a minha vida, como se nada se passasse, até um dia, de um momento para o outro, me aperceber que não a estava a viver da maneira correta. Que me ia perdendo por olhos incertos, que me envolvia em braços que não se encaixavam no meu corpo, que moldava os meus lábios em lábios… que não eram os teus. Um dia qualquer, numa hora qualquer, apercebi-me. Apercebi-me no meio da escuridão do teu bolso que aquela era a minha realidade – uma escuridão, escuridão essa que me tinha andado a tapar os olhos de ti, e daquilo que representavas.
                Perdi-te a partir do momento em que deixaste de ter um rumo certo. No dia em que te tiraram o chão, tiraram-me também o meu. Tens deambulado pelo mar, qual pirata com um sentido de aventura adormecido, que espera encontrar o tesouro sem usar um mapa que o guie até um. (Deixa-me ser o teu tesouro). Partiram-te os ponteiros da bússola, e deixaste de ter noção de qual é o teu Norte. (Deixa-me ser o teu Norte). Arrancaram-te as asas, (Deixa-me ser o teu paraquedas) e atiraram-te para um poço sem fundo (Agarra-te a mim).
                Nunca me apercebi que te tinha até ao dia em que mo esfregaram na cara. Em que uma ventania agressiva se esbateu contra o meu rosto, empurrou o meu corpo para trás e eu senti que o meu destino tinha estado sempre ali, tão perto. Tão longe. Andei a pontapear-te, porque na realidade não podias dar-me a mão (Dá-me agora). Disse-te para ires embora, embora nunca tenha verbalizado tais palavras. Acenei-te, virei costas, e fui embora. Até uma corda invisível me puxar novamente para trás.

                É tempo para te libertares. Para dares uma oportunidade a quem foste, e continuares a sê-lo. Veleja sem destino certo, mas usa um mapa. Segue o teu rumo, mas conhece-o. Voa, mas não para longe.

                Tira-me do teu bolso, e junta-me à tua mente.

domingo, 20 de março de 2016

See ya later



Fui-me deixando levar pelo tempo. Esqueci-me de não me esquecer de mim e dos meus sentimentos. O tempo roubou-me vontade, mas deu-me dedicação. As horas levaram a dias, os dias a semanas, e as semanas a meses. Hoje estou aqui, e apercebo-me do tempo que passou.
Um dia escrevi algo nas notas do telemóvel e perdi essa nota. Foi a meio desses meses, quando me apercebi que a distância me trouxera muitas coisas boas, tendo sido uma delas o discernimento. Apercebi-me de algo que andava ali a dar ar de sua graça há algum tempo, um bichinho chato que me passava pela mente de quando a quando, mas que eu decidia ignorar e pô-lo no bolso – mas metia-o sempre no do coração, e talvez tenha sido um erro. Ou não, quem sabe. Quantas mais vezes eu insistia em metê-lo lá, mais vezes ele arranjava maneira de encontrar um caminho desde o meu peito, até ao meu cérebro… Até um dia, não há muito tempo, eu realmente aperceber-me desse feito. De um amor que (ainda) não é amor. De duas almas partilhadas já há anos, e que nunca me tinha feito sentido se conectarem de tal maneira.
Já não me recordo das palavras que escrevi. Esmoreceram no tempo, e enterram-se no meu coração. Dei-lhes espaço para se acomodarem e ficarem. Fiz-lhes um café, para se manterem firmes até, um dia destes, fugirem pelos meus lábios. Quem sabe se não te convido também para um e, talvez, me digas que isto sempre foi um sonho teu. Daqueles que nos perseguem antes de dormir e, às vezes, por consequência, te encontram no subconsciente.


Encontramo-nos depois.

sábado, 19 de setembro de 2015

Clichés


Hoje decidi que é tempo de mudança porque a mudança vem sempre a tempo. Tomei a decisão de que é tempo de deixar de me lamuriar por coisas que já passaram e que não tiraram bilhete de volta. O mundo dá tantas voltas como as que a vida dá, e tentar andar ao contrário da rotação terrestre é burrice e perda de tempo. Se não dá, não dá. Se não deu, nunca voltará a dar. As pessoas deixaram de se encaixar e moldar umas às outras, deixaram de pedir desculpa e de dizer Adeus com aviso prévio. Deixaram de se importar com os sentimentos de quem quer que seja, e não se importam de calcar os nossos pés enquanto tentamos dançar uma valsa.
A aventura começou, e é altura de partir à descoberta. Uma vez, não há muito tempo, li que aquilo que deixamos para trás nunca é melhor do que aquilo que nos espera em frente. É preciso levantar a cabeça, desta vez a sério, e ficar com este pensamento firme: existe muito mais por aí do que aquilo que imaginamos. Já faz muito tempo que decidi deixar para trás aquilo que me fazia pior, mas é mais fácil dizer que isso vai acontecer do que fazer com que aconteça. Vamos arrastando a pele que já devia ter saído do nosso corpo por aí, guardando no bolso o esqueleto de amores perdidos, de desamores e dissabores, de amizades desfeitas… É tempo de mudar o tempo. De apagar da nossa história toda essa carga que carregamos nos ombros. Dar o nome certo ao que as coisas são, sem adicionar adornos. É. Foi. Será.
É altura de te/vos arrancar do fio ao qual se prendem ao meu coração, e vos atirar borda fora. Preciso de espaço para mais dores, dissabores, mas também alegrias e felicidade. Preciso de mim, como era antes de ti. Embora seja experiência, que não passe disso.

E ao contrário de muitos, eu digo: Adeus. Não é um Até Já.

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

You

                

                Quando achava que o meu subconsciente me andava a pregar partidas e eu andava a viver outras vidas que não a minha depois de baixar as pálpebras, apareces-me tu. Já me tinha questionado várias vezes sobre a razão pela qual nunca me tinhas aparecido no mundo paralelo para o qual não pago bilhete quando o visito. Logo tu, que fazes parte da minha vida há tanto tempo e que tantas vezes acabaste a – sem querer – rebentar com a minha sanidade e com os vasos sanguíneos que vivem no meu coração. Ultimamente as circunstâncias não têm sido as melhores, e as coisas têm sido complicadas, admito. Mas também admito que não são só as coisas que são complicadas: francamente, eu também o sou. Creio que é possível ver a olho nu a névoa de sentimentos de que sou feita, e o quão esgotante é conviver comigo.
                É deprimente quando tudo o que mais queremos relembrar são os contornos de que são feitos os nossos sonhos, e na nossa mente apenas se conservam flashes de momentos que lá vivemos. Por mais que queiramos alimentar-nos daquilo que nos mostrou o nosso cérebro de forma inconsciente e reviver aqueles segundos vezes e vezes sem conta, até à exaustão – ou por muito que queiramos descrever aquilo num mero desenrolar de palavras –, não conseguimos chegar-lhe. Parece demasiado longe, tal como a possibilidade de se tornar real.
                No meio da zanga que me impedia de voltar para ti, entre a incredulidade da situação e a raiva que sentia, baixei a guarda. Derrubei as paredes construídas pelo meu orgulho, e quando viravas as costas para te ires embora, abracei-te. Abracei-te como quem abraça o seu mundo com medo que ele caia, com um aperto tão grande como aquele que sentia no ente, tão forte como aquilo que sinto por ti. Abracei-te, e só me lembro de acordar.
                Agora, falta que os sonhos se tornem realidade e que eu seja capaz de me derrubar a mim própria.


domingo, 26 de julho de 2015

I need you so much closer


Todos os dias, uma nova marca. Carregada com cor de giz vermelho, mas com a força de uma foice. Quando nos esquecemos que a vida dos outros acontece enquanto nós estamos mais preocupados com a nossa e com a daqueles com quem convivemos no dia-a-dia, o mundo dá voltas: voltas que nós só queríamos ter evitado. As ondas dos oceanos acontecem, os ventos acontecem, os pingos de chuva acontecem, os raios de sol acontecem – a vida acontece. É nestes momentos que nos apercebemos que andamos demasiado preocupados com coisas levianas ao invés de com o passar do tempo. Preciso de ser levada pelas ondas do oceano, de viajar entre os ventos, e sentir a chuva e o sol. Preciso de fugir. De ti, de ti e de ti.
                Achei que a armadura que tinha vestido era forte o suficiente para me proteger desta reviravolta; agora sinto que não o é. Acho que nunca ninguém está preparado para que nos tirem o tapete de debaixo dos pés e nos atirem para o espaço… Parece que, por mais voltas que tenhamos dado, nunca somos aquela pessoa, a certa.
Nunca me preferiste. Nunca fui a tua primeira opção. Fechaste-me dentro de um pote só meu, onde fui tua, mas nunca fui Aquela. Fui sempre aquela. A que estava sempre lá, e a que sabia que também estavas sempre lá. A única coisa de que me posso queixar ao fim destes anos todos foi por nunca me teres amado como eu te amei. Nunca te fui suficiente dessa maneira que queria. É por isso que preciso de fechar este capítulo de uma vez por todas. Preciso não só de viajar entre os ventos, mas também dentro da minha mente, de forma a conseguir fazer um trato com ela e, assim, tirar-te daquele compartimento só teu – que tanto espaço ocupa – dentro do meu órgão propulsor. Podes continuar lá, até porque continuo a precisar de ti. Mas preciso que te encostes a um canto, e não sejas mais do que aquilo que consegues ser. És tanto na minha vida, que nunca quero que vás embora. Sinto-me pequenina, sem ti.
Fica.
Mas se vais ficar, preciso que compreendas que às vezes sentimos demasiado. E quando isso acontece, a única solução é fugir.
Não de ti.
De ti, nunca.

Mas daquilo que me fazes sentir: segura, única, eu.

domingo, 19 de julho de 2015

A última vez que te vi




Não doeu. Não chorei. Custou-me a alma, mas sei que será mais positivo para mim do que para ti. Deixaste de me fazer sentido, até porque nunca fiz sentido para ti, percebo-o ainda mais agora. A chapada que me deste não foi de luva branca: tomara que o fosse, mas acho que nunca o conseguirás fazer. A chapada que me deste, foi feita de mentiras. Tentaste tapar-me os olhos quando eu estava a ver melhor do que qualquer pessoa, nitidamente, perfeitamente. Mostraste que não posso confiar em ti e confirmaste o teu (de)sentimento.
Dizem que as mulheres têm um sexto sentido, e eu diria que o meu nunca esteve tão apurado como naquele dia em que, quase sem me aperceber, rasgaste o capítulo do teu livro que tinha como título o meu nome. Pensava eu, na minha inocência, que conseguiríamos ser simples companheiros... Hoje, não vai dar. Amanhã, não quero. Talvez um dia seja possível arrancar do meu peito a cicatriz que lhe deixaste.
Neste momento, não vou dizer que não me magoas porque estaria a mentir. Foi por isso que, nesta última vez que te vi, nesta última vez que me viste, nesta última vez que nos vimos, te digo Adeus. Não sou eu quem vai embora – és tu. A pessoa que conheci, a pessoa em quem confiei, a pessoa de quem gostei. Ir para longe é diferente de ir embora.
 Quando eu voltar, já não te devo conhecer. Espero que não aconteça. Espero que sejas verdadeiro e não te escondas por detrás de máscaras com sorrisos falsos, olhos brilhantes, e o teu coração continue desconectado da tua mente. Na última vez que te vi, vi-te realmente: internamente só, externamente acompanhado. Vi-te. Vi-nos.

E que esteja enganada.

domingo, 12 de julho de 2015

Horas certas

                
               Este céu… Lembra-me de ti. Não é pelo azul inexistente dos teus olhos cor de mar, ou pelas nuvens feitas do algodão doce que partilhávamos na festa da terrinha. Não.
                Apercebi-me de que quanto mais olhava para ele, mais ele me fazia lembrar-te. As nuvens pareciam construir um caminho que – quase o juro – tenho a certeza me levava até à tua presença. Foi por isso que, mal cheguei a casa, fugi logo para longe. Não queria aproximar-me, muito menos reaproximar-me.
                Aquilo que me faz lembrar de ti quando olho para aquela eternidade pintada a azul com uns adornos esbranquiçados, é a sua serenidade. A profundidade com que, de rompante, me olhavas por entre cada bafo no cigarro e te fechavas em desabafos sobre a vida. A tua calma enquanto me davas a mão antes de irmos até ao café, como se tivéssemos feito isso uma vida inteira.

Conheço várias histórias de amor: cada uma com o seu encanto, cada uma com a sua magia, e todas de géneros diferentes. Aquelas que começam ainda a puberdade mal atacou, e que só terminarão quando a morte os separar; aquelas que nascem de um outro sentimento tão ou mais colorido que o amor, e que viram o mundo dos que dela fazem parte do avesso; as que nascem e, por momentos, desfalecem mas, quando menos se espera, voltam à vida com mais força; as que aparecem de um encontrão entre dois desconhecidos… São tantas, e todas tão bonitas… Mas nenhuma é tão linda como a que melhor conheço. Que nasceu do céu, porque é dele que os teus olhos são feitos. Porque é dele que o meu coração é feito. Que nasceu do mar, porque é ele que contorna a tua alma e a minha quando se encontram. Nenhuma é tão linda como aquela.

Fujo de ti porque sei que não é certo que te volte a dar a mão. As nuvens tentam seduzir-me, trazem-me lembranças que me eriçam os pêlos, puxam-me na tua direção. Mas eu não posso nada mais fazer que fugir, porque tu não és meu. Nunca o foste, e é por isso que tomo um comprimido anti-memória para as dores de coração em forma garrafal, e me escondo entre os cobertores. Quero que o céu chova, e as nuvens esbranquiçadas deixem de morar em cima da minha casa. Ela deixou de ser também a tua morada, e é hora de irem embora. Nas horas certas, ainda vou pedindo o mesmo desejo há meses. Vou tentando. Sem persistência, nada acontece. Fujo de ti.
Aquela.
A nossa?

Aquela que não me pertence.

domingo, 28 de junho de 2015

(Blank Space)


Deixaste-te ficar pelo silêncio. Escondeste-te por detrás dos balões do pensamento mas nunca, em momento algum, conseguiste explicar-te. Os diálogos que se estendiam pelas madrugadas foram substituídos pelos suspiros de saudade daquilo que nunca existiu realmente. As juras – que não eram mais do que palavras – foram substituídas por um desviar do olhar no meio do corredor. Como se não nos conhecêssemos, como se não tivéssemos partilhado histórias e medos, aspirações e desejos. Camuflaste-te no meio do silêncio, e deixaste-me à deriva; partiste do princípio de que eu não queria saber porque, também eu, decidi optar por ele. Não foi rancor. Não foi ciúme. Decidi-me pelo silêncio e pela distância, porque essa, naquele momento, me parecia a resposta mais direta para a desilusão que sentia. Porque as pessoas gostam de usar palavras (que mais parecem navalhas) quando a cabeça lhes ferve, e depois essas palavras fazem ricochete e voltam para elas mais fortes e destruidoras. Achei que conseguia ignorar sem me autodestruir... E a verdade é que me reconstruí.
Deixaste-te ficar pelo silêncio. Deixei-me ficar pelo silêncio. E agora aqui estamos: dois desconhecidos que se conhecem tão bem.

Longe.

quarta-feira, 17 de junho de 2015

Insight


No meio da confusão, apercebi-me. Por entre apontamentos coloridos, folhas espalhadas, saberes por aprender e palavras por dizer, apercebi-me. Provavelmente já o sabia, no entanto teimava em achar que o defeito não era meu. Se já tinhas tantos, como outra pessoa qualquer, porque não haverias de ter outro? Mas, desta vez, talvez tenha sido eu a enganar-me.
Passara os últimos tempos a achar que ele tinha uma venda nos olhos que o impossibilitava de ver que éramos feitos um para o outro: não éramos carne da mesma carne, ou sangue do mesmo sangue, mas completavamo-nos como um café e uma nata. Tu e eu. Éramos tu e eu. Convenci-me de que o único problema aqui era a incapacidade dele de amar alguém, o medo de dar um passo em frente, e o único desejo de receber e pouco dar. Mas até que ponto será isso verdade?
Virei uma página e tentei deixa-lo nela. No entanto, enquanto a escrevia, borratei a mão com a caneta ainda por secar, e ele foi deixando rastos na página seguinte. De quando a quando, lá está ele. A estragar uma folha completamente perfeita, um novo capítulo de uma história que ainda tem tanta tinta por escorrer – mas está ali. Para que ele deixe de reaparecer em cada nova página que escrevo, terei que lavar as marcas dele da minha mão, do meu corpo, do meu coração. Preciso de ser forte e compreender que é o melhor a fazer.
Os seus pensamentos enrodilharam-se de tal maneira que, desta vez, vira com clareza o que estava à sua frente há tanto tempo: outrora, não estivera cega. Naquele momento, também não.  Não tinha sido suficiente para ele. Não digo que não tenha sido boa o suficiente, ou aquela que o faria mudar… Simplesmente, não era quem ele procurava. Podia até o ter acarinhado como mais ninguém fizera, podia ter-lhe dado sentimentos que ele nunca mais encontraria por mais que procurasse em cada esquina; mas simplesmente não era suficiente. Já devia ter partido faz tempo, mas decidiu ficar ali, a deleitar-se com o prosseguir de uma história que não a deleitava de todo. Perfurava-lhe o coração por mais que ela o negasse e, no fundo do seu ser, só queria sair dali.
Mas compreendera. O fim já tinha sido há muito. Não queria voltar atrás, mas é difícil tirar marcas que tinham sido tão bem cravadas nos poros do seu peito. Era difícil esquecer, porque a memória convive connosco e não nos permite faze-lo quando nos apraz.
Não tinha sido suficiente, mas estava contente por isso. Ele também não era suficiente para ela.

Só faltava ela própria compreender isso.

sexta-feira, 29 de maio de 2015

Rescue You

Procuras por ela em cada canto. Tentas encontra-la em cada objeto que pegas e por cada lugar que passas. Tentas vê-la nas árvores ou atrás dos arbustos, como se soubesses exatamente onde poderias encontra-la mesmo que ela não se escondesse. Procuras no mar, no céu, nas nuvens, e na lua. Ainda assim, sentes-te incompleto. Precisas do toque e da certeza que ela está ali, ainda que não sejam as mãos dela ou o coração dela debaixo daquele peito que pensas ser teu. Buscas pela sua presença, mas agora nos outros. Imagina-la e sonhar com ela não é suficiente, e aquilo de que precisas já é mais carnal do que espiritual. Não há plenitude em ti sem que saibas que está ali alguém que te cuide, ainda que na maioria das vezes te faças muito senhor do teu nariz, te feches, e não o permitas. Tu queres, mas não te dás de volta. Desejas sentir-te cheio - seja lá do que for - e esqueceste de que aquela que pensas ser A Substituta de quem procuras, é igualmente uma pessoa. Mesmo sabendo que não há quem possa ocupar o lugar dela, lugar esse de onde a tiraste praticamente ao pontapé, continuas a tentar.
Procuras pelos olhos dela naquelas que passam por ti na rua e te sorriem, esquecendo-te que ela também sorria com os olhos; procuras pelos cabelos, tendo a certeza que aquilo que os segura, é bem diferente do d'As Outras; tentas encontrar a estranheza dela na timidez das que partilham contigo um banco, mas parece que deixaste de compreender que era isso que mais vos ligava um ao outro, e que não há maneira de a reencontrar.
É certo que continua ali. Vai observando o teu percurso, e fazendo o dela em paralelo. Lembrou-se que precisava de pensar em si própria, e partiu os carris que a levavam a cruzar-se no teu caminho outra vez. Mas não se esqueceu que tu existes. Só está à espera que as coisas melhorem e que, mais importante, tu melhores. É mau estar doente do coração, principalmente quando essa maleita é transmissível.

Cuida de ti, meu pequeno. Ela só quer que cuides de ti.

quinta-feira, 14 de maio de 2015

Tempo que mata

               

               As horas foram passando, e com o roçar leve dos tique-taques na base do relógio, fui-me apercebendo daquilo que me rodeava. Vislumbrei o mundo que estava à minha volta, baixei a guarda que me cegava com o coração, e compreendi. Nunca somos Únicos para ninguém. Nunca marcamos tanto quanto pensamos. Por vezes, é a nossa esperança que nos faz acreditar que sim – que, com as nossas próprias mãos, cravámos uma história na pele de outrem e que essa história não é soprada pelo vento do tempo. O bom desta descoberta é que, pela primeira vez em muito tempo, o nosso mundo não ruiu. Parece que o passar das horas também foi montando uma cama de penas que abafou a nossa queda e que depressa nos levantou a cabeça; observamos a vida à nossa volta, e sentimo-nos plenos. Percebemos que o que foi, está no passado, e às vezes é mesmo preciso mudar de página, de capítulo, de livro, ou até de volume ou saga. É necessário conseguir olharmo-nos ao espelho e não nos vermos como atores secundários da peça em que deveríamos ser principais, imaginando aquela que achávamos ser um espécime de alma gémea com a mão no nosso ombro – mais a tocar no coração. É altura de atentar no que é realmente importante, e começar a deixar de parte aquilo que um dia nos tirou um pedaço… É certo que ele nos faz falta, mas se voltasse, já não se moldaria em mim. Com todas as batalhas, não sou a mesma pessoa. Os pontapés que me foram dando de quando a quando, e que eu afagava com sentimento, passaram a ser-me imunes. Muito se diz que o que não nos mata, nos torna mais fortes: e não é que percebo que agora é verdade?
                Claro que as coisas não se esvaem assim do nada. Tal como uma pequena semente gera uma enorme flor se for regada decentemente, basta eu esquecer-me de uma migalha de ti por entre o meu peito. Mas desta vez, farei de tudo para que ela não rejuvenesça. Já chega, é altura de ir embora. É altura dos ponteiros do relógio pararem, e eu atira-lo ao mar.


sexta-feira, 10 de abril de 2015

Karma's beautiful


Já magoei. Mas também já fui magoada. Continuo a sê-lo, quase todos os dias, como se levasse com uma apunhalada nas costas de cada vez que o fizessem. Quando digo "mágoa" não me refiro a uma simples dor física, mas sim a uma dor mais profunda e forte – uma dor emocional. Por vezes acompanhada de um palpitar mais forte de coração, é certo, mas emocional e não carnal.
Há uma coisa na nossa vida muito engraçada que tem a mania de colocar as coisas no seu devido lugar. É um tema constante naquilo que vou desenhando no papel, e denomina-se de karma. Em tom de confidência, creio que este precisa de uma desenferrujadela, mas normalmente faz tudo devidamente, embora a maioria das vezes o odiemos e achemos que está a virar a nossa vida do avesso. Relembra-nos que quando achamos que está tudo perfeito, há aquele pormenor que altera tudo. Ilumina-nos com a Lua quando queremos raios do Sol, tira-nos o chão quando precisamos de voar. Atira-nos com areia para a cara quando nos parece que o vento está a soprar a nosso favor. Empurra-nos para o precipício quando achamos que temos algo que nos ampare lá em baixo. Dá-nos nada quando queremos tudo. E é aqui que devemos parar para pensar: dá-nos tudo quando não queremos nada. Naquele momento em que desistimos, quando achamos que já não há nada a fazer e deixamos de nos importar com os outros (e, às vezes, connosco próprios), o karma oferece-nos uma razão. Algo que nos faz brilhar os olhos e desencarcera os palpitares cardíacos. Oferece-nos uma visão nova do mundo. Mostra-nos novas perspetivas.

Tu já viraste a página. Resta saber quando é que vou virar a minha.

segunda-feira, 9 de março de 2015

"Depois da despedida...

                

               Tenho saudades tuas. Infelizmente não posso mentir a mim própria e dizer o contrário. É impossível tentar mentalizar-me dessa (ir)realidade quando a cada passo que dás para mais perto de mim, o meu peito rebenta de saudades tuas; não são daquelas de quem está longe e de quem já não se toca há muito tempo. É certo que o toque mudou. O tipo de distância alterou-se. Mas as circunstâncias não são as mesmas e, por isso, tenho saudades tuas. Daquele tipo que nos faz querer abrir o estômago e assassinar todas as borboletas, que nos leva a atirar ao precipício sem ter a certeza da existência de colchões que nos amparem, que nos obriga a mentir a nós próprios e a fazer-nos crer que ainda não acabou, que nos persuade a ser esperançosos quando já não existe mais nada a que nos possamos agarrar. É lixado ter saudades e não saber o que fazer. Ter necessidade de sacar da pistola e aponta-la à cabeça do objeto saudoso de maneira a que estas desapareçam para sempre e não magoem mais.
Pior que sentir falta de alguém, é sentir falta de algo. Sinceramente não sei se era um sentimento, se era uma necessidade. Mas era alguma coisa. E por muito que se pegue na borracha e se sente apagar as memórias, basta viajar para o mundo dos sonhos – que rapidamente passam a pesadelos. O inconsciente relembra-nos, o coração sente. Tudo volta.
                Ter saudades estraga tudo quando o que mais queremos é não as sentir. Ocupar o cérebro e ignorar aquilo que está escrito do lado esquerdo do peito não acontece a toda a hora. Renascem as saudades. A mágoa. Vale a pena?
                Não. Acho que não. Não sei.

                Sentir é assim: não saber de nada, e não saber se queremos saber. 



...fica o eco do Adeus"

domingo, 8 de fevereiro de 2015

feeling's flake





Não te posso ir amando se o tempo vai passando. É possível que se faça uma bola de neve de sentimentos... E, ao longo da montanha, ela vá aumentando. Cada vez mais. Quanto mais eu vou diminuindo, sentindo-me cada vez mais pequena e ínfima, mais se agiganta esta bola de neve. Se ela transbordar, também eu transbordo com ela. Quanto mais tempo passar, mais as emoções me consomem. Ao destino, apraz-lhe adicionar esperanças em forma de fermento à bola já gigante.
São tantas as vezes que nos deixamos levar por aquilo que o vento nos sussurra ao ouvido, que são tantas as outras vezes que nos esquecemos de dar uma oportunidade ao nosso cérebro. É certo que sempre fui adepta de darmos atenção ao que nos transmite o órgão propulsor mas… e se?
Eles comunicam, mas não existe um contra balanceamento. Há sempre algum que tomará mais peso da nossa decisão que o outro e, desde que me conheço, que tem sido o dono do palpitar do lado esquerdo do peito a que tenho dado mais importância. Sentir tudo, de uma só vez. Arrepiar-me enquanto a minha bola sentimental passa por mim e me congela os ossos. Sentir a brisa fresca espalhar-se pelos meus poros ao mesmo tempo que, para a contrariar, o coração espalha calor pelo meu corpo: é por isso que continuo. Sã. Em pé. Com força.
E se, quando queremos tomar decisões só de alma e coração, quando a nossa maior vontade é seguir aquilo que ele nos diz – ainda que pareça loucura – e é o nosso cérebro que tem toda a razão? E se o melhor é apanhar um trenó e perseguir a bola antes que ela fique maior e leve todo o nosso eu para fora do planeta? Por vezes, temos de tomar decisões que vão contra a nossa vontade. Devemos nadar contra a maré e correr contra o vento. Mesmo que doa. Mesmo que custe. Por vezes, temos de pensar no nosso bem-estar mental e não nos aventurarmos nesse iglô que é o amor. É difícil adaptarmo-nos ao frio mas, se entrarmos no iglô e simpatizarmos com os esquimós, passamos a fazer parte da sua comunidade. Transformamo-nos nos enamorados que usam casacos de pêlo feitos de paixão e se alimentam do dar e receber. Passamos a conhecer o amor depois de atravessarmos a tempestade. Mas nem toda a gente é capaz de as ultrapassar – umas são mais complicadas que outras. Há que ir fazendo pausas pelo caminho, e tentar descansar.

Mas não quer dizer que a bola de sentimentos não continue a descer a montanha. Por mais cordas a que a tenhamos prendido para que ela não se mova, não há nada que nos faça parar de amar. Não há nada que impeça a bola por muito tempo de continuar a descer a montanha. De amar. De transbordar. Por mais que se pense, também se ama.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

The Revolt

                

                Não vale a pena continuar a imaginar e sonhar com contos de fadas porque a sua resolução é óbvia: o príncipe (des)encantado vem atrás de nós e, enquanto nos beija o pescoço e nos sussurra palavras de amor, espeta-nos uma faca nas costas e roda-a. 
                Não vale a pena continuar a esconder palavras que escrevemos nas horas vagas da noite só porque temos medo que sejam mal interpretadas – provavelmente não irão ter consequências positivas, então, não desperdicemos os nossos dedos no teclado e mostremos ao mundo aquilo que sentimos. Seja o que Deus quiser.
                As expetativas, guardem-nas no bolso do coração do vosso casaco preferido. Depois tirem o casaco, ateiem-lhe fogo e fiquem a observar o vosso sofrimento a esvoaçar nas chamas e na cinza. No final da fogueira, dancem em cima dela: sintam-se livres, esperançosas, sintam-se vocês, sintam amor.
                Não vale a pena esperar. Se as coisas voltam, não voltam as mesmas. Antes de retornarem, deram a volta ao mundo em oitenta dias (ou um pouco mais), pensaram, sentiram falta, viram coisas novas e, pouco a pouco, as células da sua pele deixaram de ser as mesmas. Aquelas mãos, nunca tocamos. Aquele olhar, deixamos de conhecer. Aqueles lábios… esquecemo-nos do sabor. Aquela pessoa, parece-nos a mesma. Mas será?
                Há quem diga que a negação é uma das fases do sarar da ferida. Eu não sei, mas sinto-a todos os dias. Relativamente a tudo. Por isso, karma, se me estás a ouvir… Estás a precisar de ir para a reforma. E contigo, leva o cupido. Creio que precisa de ir ao oftalmologista. Ou então… se me estão a dar maus sinais, resolvam-nos a tempo de eu não auto-degolar o meu coração. Um sinal qualquer. Algo que me diga “calma, não é desta!”; porque se assim for, eu sento-me na cadeira da sala com uma chávena de chá e, não querendo descredibilizar aquilo que disse anteriormente, espero.
                Porque nós somos assim. Dizemos tudo e mais alguma coisa, queremos andar à porrada, queremos sangue, suor e lágrimas mas, no final, só queremos amor.