domingo, 27 de dezembro de 2009

(in)constante

e agora, neste preciso momento, estou sentada no meu balancé, num vai e vem sem fim. vou zurrando com os pés no chão, para não levantar muito, para o caso de cair na rotina e me magoar cá dentro. e se eu caísse, caía para o abismo, ficaria no meio da rua da amargura, estatelada no chão, sem força nem coragem para mostrar a cara. seria uma fraca, sem poder para voltar a subir o balancé, e continuar a vida, continuar numa balança que tanto me acha pesada, como leve - continuar a ser inconstante.
se te perco, perco a minha cabeça, e depois o que faço eu? volto a cair no abismo, e dessa vez, não saberei onde arranjar forças para me levantar, antes que passe uma onda de desespero por cima de mim e me leve para o fundo do mar, - e como alguém muito próximo espiritualmente - e eu fique na barriga da baleia. mas se tu me perdes a mim? perdes a tua cabeça? cais do abismo? ficas sem saber o que fazer? és levado pelo desespero? essas são perguntas que ainda não sei responder, e acho que também não sabes. deves saber tanto como eu. mas ainda assim, continuo no meu balancé, mais uma e outra vez. se caio, levanto-me rapidamente antes de avistar um furacão, antes de ser engolida por um buraco negro, antes de me desfazer no ar, como pó. porque sei que é tão certo como o sol está no alto ao meio-dia e quando eu estiver no fim, saberei o que fazer, saberei o que estarei a sentir. porque os sintomas de que a dor se está a aproximar já os sei de cor, tal como sei de cor a minha palma da mão. não te conheço tal como conheço os sintomas da dor, tal como conheço a palma da minha mão, mas conheço o suficiente, não é? e é tão bom saber o suficiente sobre ti, saber como lidar contigo. saber o que fazer para te deixar feliz, ou zangado, sei lá. mas ultimamente, parece que não consigo fazê-lo, estás tão inconstante quanto eu. parece que encontraste o teu balancé, e que gostaste tanto dele como eu do meu, e não te queres separar das suas cordas, que para mim já são como duas mãos que se juntam às minhas, para me ajudar a ultrapassar tudo e mais alguma coisa. poderia dizer que és o meu porto de abrigo, mas na verdade estaria a mentir, porque o meu porto de abrigo é o teu coração. e tu e ele têm andado longe, muito longe, apesar de me tentares fazer ver que não. e agora? onde me escondo nas tempestades de lágrimas que já não me invadem à tempos? tenho medo que voltem, tenho imenso medo.
«o tempo foi diluindo a tua presença na minha vida. quem sabe um dia também dissolva a tua imagem da minha memória, e eu consiga esquecer-me de ti. não é o que quero; porém, era o que deveria fazer. nunca somos donos do nosso coração. o meu não é meu, porque quando amo profundamente estou a dá-lo a outra pessoa, tal como Salomé quando reclamou a cabeça de São João Baptista.
quando amamos alguém, não perdemos só a cabeça, perdemos também o nosso coração. ele salta para fora do peito e depois, quando volta, já não é o mesmo, é outro, com cicatrizes novas. às vezes volta maior, se o amor foi feliz; outras, regressa feito numa bola de trapos, é preciso reconstruí-lo com paciência, dedicação e muito amor-próprio. e outras vezes não volta. fica do outro lado da vida, na vida de quem não quis ficar ao nosso lado.» margarida rp.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

d

sabes uma coisa? às vezes penso tanto no que já passámos, e vendo bem, não passámos nem metade do que ainda vamos passar. ainda temos um longo caminho a percorrer, não é verdade pequeno? já escrevi tanto e tantas coisas sobre ti, e agora, que já passou tudo, não sei o que realmente dizer. porque dizer que gosto imenso de ti, já o sabes, e estar a repetir sempre a mesma coisa é chato. não sei realmente o que dizer. porque não consigo descrever tudo o que sinto por ti. chamar-te de melhor amigo, melhor companheiro, melhor colega, é tão vago. tu sabes o que realmente significas para mim, não sabes? és muito, muito mesmo para mim. és como um irmão mais novo, que cuido todos os dias e que estrago com mimos. és como uma flor que todos os dias rego para nunca secar. se começasse para aqui a escrever coisas sem sentido, voltava a repetir todas aquelas frases que já escrevi anteriormente... coisas que me vinham à mente; toda a gente tem disso. mas nós temos uma amizade linda, porque apesar dos meios, apesar de tudo, eu sei que estás perto, estás sempre perto de mim. e tal como eu cuido de ti, tu também cuidas de mim. dás o teu melhor, sei disso. e o teu melhor basta para me sentir protegida. é essa a palavra certa, és o meu grande protector. estás sempre comigo, todos os minutos e horas. e como que por telepatia, acertas sempre nos momentos em que mais necessito de ti. talvez aches isto tudo demasiado estranho, porque já à muito tempo que não escrevo nada aqui para ti. estamos neste momento a conversar, e não fazes a mínima ideia de que estou a preparar isto para ti. é como uma prenda de natal antecipada, já viste? tanto tu como eu não damos assim muito valor ao natal, que eu sei, mas a troca de presentes é o que dá mais magia à coisa, e tu dás-me presentes quase todos os dias. as tuas palavras são como pequenas caixinhas com um laçarote, e tu nunca reparaste nisso. estou aqui a dizer pequenos e profundos segredos do que que me és, para toda a gente ler e sentir. agora sim, posso dizer que começo a escrever coisas sem sentido, mas tu também sabes que faz parte de mim redigir coisas sem sentido, já te habituaste.
foste tu que, indirectamente, me fizeste desenvolver o amor pela escrita. foste tu que ma fizeste apreciar, sabias disso?
e agora, já posso começar com os meus comuns agradecimentos. obrigada, obrigada, obrigada. obrigada por ainda estares comigo! gosto muito de ti.
«(...)Imagino o teu sorriso compreensivo, quase cúmplice, ao ler estas linhas. Não sei como nem porquê, mas tenho a certeza que entendes o que aqui te escrevo para além do que te estou a dizer.» entendes-me sempre.
love of my life, my soulmate. you're my best friend.
dcdo

sábado, 19 de dezembro de 2009

o que acontece


Um dia acordei, como normal. Levantei-me e logo de seguida fui à casa de banho. Olhei-me ao espelho, e coloquei as mãos à cara. Tornei-me num alguém. Lavei a cara, e vim de novo para o quarto. Comecei-me a vestir, e quando comecei a fechar o fecho do meu casaco.. Apercebi-me de que tinha chegado à altura de mudar algo, senti isso no meu coração, mas não liguei muito. Fui para a cozinha, e arranjei o pequeno-almoço. Quando coloquei o copo de leite nos lábios, senti o seu sabor real, uma coisa que nunca tinha sentido antes. Era bom, nunca tinha reparado realmente, era uma coisa tão vulgar… algo tinha mudado mesmo em mim. Pus a mochila às costas, e saí de casa. O dia estava a ser mesmo estranho. Quando ouvia a voz de alguém, conseguia logo perceber o tipo de pessoa que era, o que gostava, o que não gostava. Quem amava, quem detestava. E na cor dos olhos conseguia prever o seu futuro, se seria feliz, ou não. Se enriqueceria, ou se conseguiria tornar-se numa pessoa humilde.
Quando escrevia algo no meu caderno, conseguia retirar de cada letra um sentimento, e escrevia sem que ninguém me conseguisse parar, escrevia o que sentia, e descrevia o que via, duma maneira diferente.
Á noite, reparei num pormenor que nunca antes tinha reparado. À luz do luar, conseguia ver três sombras minhas. Mesmo estranho. Depois de passar o primeiro poste, passava a ver apenas duas sombras, e após o segundo poste, via apenas uma sombra. Essa qual, que no fim da rua, desaparecia.
Quando fui para o banho, senti a água descer sobre o meu corpo, e conseguia senti-la de uma forma diferente, era suave, e transmitia-me paz. Quando estava um pouco mais fria, arrepiava-me, e quando estava um pouco mais quente, eu sentia-me bem. Eu gosto da água a ferver.
Ao deitar-me, senti todas as minhas energias serem renovadas. A dor de costas que me tinha atordoado durante todo o dia tinha passado. E depois de fechar os olhos e sentir a suavidade da minha almofada, vi um mundo diferente. O mundo que tinha todos os meus sonhos e desejos. Ao tentar alcançá-lo, acordei. E tudo começou novamente… um dia saberei porquê.
(antigo. ultimamente não tenho tido inspiração)

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

bye


estava contigo pela mão, íamos a correr no meio da estrada, juntos, perto, muito perto. eras como um vulto para os que estavam de fora. estavas duma cor transparente, incolor; mas para mim eras mais que colorido, via-te nitidamente, como se fosse tudo real. seria?
estavas a sorrir para mim, mas estavas longe. era um sorriso forçado, como se fosses obrigado a estar ali a meu lado, como se apenas os meus dedos te prendessem a mim.
estavas indolor, como se fosses uma sombra perdida na estrada. os carros passavam por ti, e nada te faziam, não te magoavam, não te desfaziam. trespassavam-te como se fosses uma poeira, como se não fosses ninguém, e continuavam o seu caminho. sentia as tuas mãos mais suaves que nunca e apertavam as minhas como se tivessem demasiado frio. eu sentia os nós dos teus dedos, um por um, entre os meus. estavas perfeito, como um Deus.
mas do nada, largas a minha mão, e começas a correr no sentido contrário. eu parei, e chamei por ti. chamei, chamei, chamei, mas ignoraste; a minha garganta doía quando comecei a correr sem saber para onde ia, apenas olhando para à frente à espera de ainda te ver e de poder seguir-te, como uma uma ave de rapina persegue um coelho. mas por fim, já não estavas lá, tal como se tivesses desaparecido dentro de um carro. ouvi buzinas vindas de todo o lado, mas ainda assim continuei a correr, a correr, a correr. mas não bastou. e tal como quando o rato tenta fugir quando entra na ratoeira, eu corria para além do precipício que aparecera à minha frente, (talvez mais como uma barata quase morta do que como um rato) mas a força dos meus pés não bastou para me manter no ar. caí. fechei os olhos. o que é que se estava a passar? mas que era tudo isto? comecei a ouvir o som de um piano, uma música familiar. de onde conhecia tudo isto? mas também, para quê pensar se sei que daqui a nada tudo acabava? que daqui a nada sou reduzida a pó pelos peixes que se encontram à espera do meu corpo morto no fundo da cascata?
mas eu reconhecia a música. eras tu e apenas tu que a tocavas às vezes para mim, naquelas noites em que passávamos o tempo a dar festinhas ao gato e a beber café, como se o dia seguinte fosse um nada, e não modificasse as nossas vidas. e de repente, silêncio. tudo preto. tentei abrir os olhos, mas apenas via o escuro. não havia mais nada para além disso, escuro. mas eu continuava consciente, estava à espera de acordar, mas isso não acontecia.
amor, estás aí? ajuda-me, tira-me deste poço sem fundo. tira-me daqui, puxa-me para ti.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

casa na árvore


estava sentada a ler um livro, na minha pequena casa em cima de um limoeiro. o tempo estava quente, e não me apetecia ir para a praia. estava demasiado calor para estorrar ao sol, e então, decidi pôr a leitura em dia. aquele local para mim era mágico, e trazia-me recordações que nunca mais vou esquecer, nem quero.
não estava sentada num sítio qualquer, estava sentada em cima do nosso sofá, que nos deu o maior trabalho de o transportar até acima do nosso limoeiro. sim, o nosso limoeiro. à minha frente, ainda perdurava a nossa foto, lembras-te de como estávamos suados quando a tirámos? tínhamos acabado de construir a casa, a nossa casa na árvore, e o vizinho decidiu apanhar-nos desprevenidos. mas nesta foto, acho-te realmente bonito, estás natural. notam-se as tuas rugas já a quererem desabrotar, consigo delinear cada pequena risca do teu olho, e as tuas pestanas estão brilhantes. até eu me acho bonita nessa foto, mas penso que apenas o acho por estar a teu lado.. é das poucas fotos que temos juntos, e das poucas lembranças que me deixaste. prometeste-me um para sempre, lembras-te disso?
a casa cheirava a canela, algo muito característico teu. adoravas a canela, e eu aprendi a adorar também. lá em cima, estou longe de tudo e de todos, e consigo reviver todos os momentos que aqui vivemos, com todos os pormenores. e consigo fazê-lo porque todas as noites os revejo antes de ir dormir, como se nunca os quisesse apagar da minha mente. era algo repetitivo, constante. diria um hábito até.. tornaste-te um hábito. na porta da casa ainda habitava aquele espanta espíritos que compraste para mim no dia do meu aniversário. os seus guizos tilintavam com o vento, e eu sentia-me protegida com ele, era como se estivesses a meu lado. não fisicamente, mas eu sentia-te perto.
às vezes fico horas a fio lá sentada a ler, parece que consigo fazer com que tudo volte. tudo mesmo. sou engolida pelo livro, e só volto à vida grande tempo depois. à alguns dias que dormi lá. no início deixei-me dormitar, estava frio e não me apetecia sair. mas acabei por adormecer. de manhã acordei com uma grande dor de cabeça, como se aquele espaço me atormentasse. mas é impossível deixar de visitar a nossa casa, o nosso lar. foi quase tudo o que me deixaste. a tua herança. o teu bilhete de adeus. só faltava mesmo deixares-me um envelope com uma carta lá dentro a dizer: «meu amor, lamento tudo isto. lamento. mas vou-me embora, e nunca mais vou voltar. deixo-te tudo o que tenho até agora: a nossa casa, e o teu coração. adeus.» às vezes vejo debaixo de todas as carpetes e nos armários, procuro por uma carta desse género, mas não encontro nada. parece que desapareceste com o vento, sem deixar rasto, mas a deixar estragos.
i miss your smile

domingo, 6 de dezembro de 2009

now


levantei-me mais cedo do que nos outros dias para ir ver o sol nascer. sentei-me na minha velha cadeira de baloiço, e deixei-me adormecer enquanto os primeiros raios de sol do dia se reflectiam na minha cara pálida;
acordei sobressaltada, dei os meus bons dias ao nosso rei e voltei a entrar para casa. acendi o fogão, pus uma cafeteira de café a aquecer, e entre tudo isto começava a chover. foi estranho o dia ter começado tão glorioso, parecido com aqueles dias de primavera, e depois se transformar numa grande tempestade. mas mesmo assim, eu gostava deste tipo de dias, escuros, sem cor. bebi o café enquanto olhava pela janela e via cada gota de chuva se desfazer quando aterrava no chão, e, ao mesmo tempo, continuava sentada na velha cadeira de baloiço nos meus pensamentos, baloiçava entre as palavras, dançava no meio dos sons e voava sobre as imagens.
por fim, dei conta de que estava a beberricar uma chávena vazia e saí da cozinha, caminhando passo sobre passo para o sofá da sala. a lareira estava acesa desde a noite passada, e nunca parara de arder. as suas cores ardentes captaram a minha atenção, e hipnotizaram-me; mergulhei novamente nos meus pensamentos mais profundos, mas a certo ponto, não tinha mais em que pensar, e isso fizera com que eu sentisse dor. uma dor muito transparente, que era invisível nos meus olhos, que apenas reflectiam as chamas da lareira que ardia sem parar no meio da minha sala cinzenta e branca. e do nada surgiu um enorme vazio dentro de mim, um vazio no meu todo que me magoava e me fazia sentir só. faltava algo a meu lado, faltava uma outra alma a pairar por entre a minha casa. faltava um alguém que me desses os bons dias e partilhasse comigo o nascer do sol, alguém com quem eu pudesse conversar enquanto bebia o meu café matinal, alguém a quem dar a mão enquanto olhava para a lareira. alguém a quem confiar os sonhos, alguém a quem dar a chave da minha casa, para sempre entrar quando soubesse que me sentia vazia outra vez. ou simplesmente, alguém a quem amar. mas agora já não sinto isso, o vazio desapareceu, e está tudo bem, pois tenho a chave da minha casa confiada a alguém. já não contemplo o nascer do sol sozinha, e tomei o hábito de apreciar também o seu adeus.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

today.

Hoje sinto-me só. Hoje sinto-me só e cansada, mais do que nos outros dias. Hoje, parece que todos se foram embora, e parece que não há quem se chegue para me emprestar o seu ombro para encostar a minha cabeça. Hoje, mais do que nos outros dias, não tenho caminho para seguir e sinto-me sem forças. Hoje, não tenho uma bengala que me ampare o peso, não tenho migalhas para seguir, e logo hoje, que me sinto perdida e não tenho uma bússola.
Parece que hoje decidiram todos desaparecer... mas, ficaste tu. ficaste tu, em quem posso sempre confiar, em quem posso sempre pensar quando estou mal, porque tu, tens ficado sempre comigo. depois de todas as desilusões, depois de tudo, tu ficaste. não é que eu esteja realmente só, mas hoje, e especialmente hoje, sinto-me só. e saber que confias em mim por inteiro deixa-me consolada. e sabes que mais? tenho-te um enorme orgulho, amiga. são 12 anos de memórias, de grandes afectos, de grandes conversas, de muitas trocas de segredos, de muitos pactos. são 12 anos de muita alegria, e com discussões, que vão das mais engraçadas, às piores, que fazem sempre parte. e hoje, mais que nos outros dias, mereces que te agradeça por tudo o que fazes por mim, por te preocupares comigo e por apreciares o que digo, por fazeres valer as minhas opiniões. merecias que todos os dias te dissesse essas coisas, mas hoje, só por ser hoje, digo-te assim. eu já te disse que és linda? já, já disse, mas o impressionante é que não acreditas em mim. e eu já te disse também que sei que nunca me vais deixar? isso nunca disse, mas sei-o. porque apesar do que faço, daquelas coisas que tu não gostas e que ficas irritada comigo, que ficas mais vermelha que um tomate, e que às vezes me faz rir! mas sabes que mais? eu gosto tanto de ti assim. eu amo-te, minha pequenina de caracóis escuros como os de uma princesa. eu amo-te. obrigada por tudo e todas as coisas, obrigada apenas por toda essa enorme confiança que depositas em mim, sentir isso, basta.
ls (L)

domingo, 29 de novembro de 2009


estava a chover, e eu estava deitada na cama com o rádio ligado. estava a olhar pela janela, era tarde. estava escuro, e a música abafava os meus pensamentos. não valeria a pena pensar em nada nem em ninguém, deveria ser um momento meu e só meu. uma nostalgia invadiu-me, e eu só queria adormecer para ultrapassar tudo aquilo. apetecia-me sair de casa a correr e ir até ti, raptar-te e trazer-te para minha casa, e fazer-te prometer que nunca me deixarias. já to disse antes, que algum dia enquanto dormias eu iria aparecer no teu quarto, meter-te dentro do meu saco, e nunca mais ninguém te veria, porque ficarias comigo para sempre. e qualquer dia, fá-lo-ei mesmo. não existe ninguém que me impeça, e tu queres que eu te rapte também, porque existe uma grande telepatia entre nós. "és linda" é algo que ouço de ti todos os dias, sabes mentir tão bem. a minha resposta é sempre "tu é que és" e digo-te isto porque é uma verdade pura. quero ficar contigo para sempre meu amor, queres também?

acabo de escrever este texto, e uma mensagem tua acaba de invadir a minha caixa de entrada, bom dia amor.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

existência


Gostava que pudesses morar ao meu lado sem saberes da minha existência. Poder ver da janela do meu quarto a luz do teu desligar-se, e assim saber que ias dormir, que ias partir para outro mundo por umas horas. Podia acompanhar-te. Podia todas as manhãs ver-te sentado à varanda a olhar o sol – os teus olhos brilhavam sempre, brilhavam muito -ver-te cortar a relva, ver-te andar de bicicleta a dar voltas e voltas num mesmo círculo. Podia saber quando saías, quando voltavas, quanto tempo demoravas. Podia ver onde estavas de vez em quando, tudo apenas da janela do meu quarto. Apenas saber como era a tua vida me bastava. Não fazer parte dela? Importava-me, mas nunca tinha havido oportunidade de me encaixar na tua rotina, passo o dia a olhar pela janela para saber onde andas, como estás. Às vezes vejo-te chorar, não sei porquê, mas sei que te dói muito o coração. Sei que és lindo por dentro sem nunca ter falado contigo, sei quando estás feliz, sei quando estás angustiado. Conheço-te melhor do que ninguém, e tu não o sabes. Sabes que vive uma menina na casa da frente mas não sabes como se chama, não sabes de que família é, não sabes a sua idade, não sabes nada de nada sobre ela. À uns dias que te vejo rondar o meu lar, parece que a curiosidade despertou em ti, pois nunca vês ninguém cá fora, mas sabes que vive aqui gente. Vês o meu pai a ir buscar o pão, vês a minha mãe sair para fazer compras, mas nunca me vês no jardim. Nunca me olhaste. Sou só, estou sempre no meu quarto – o meu refúgio. E tu estás assim, a tentar encontrar-me, sem eu poder mostrar-me. Escondo-me também, não quero nunca que me vejas, gosto do mistério. Sei que se algum dia me vires eu serei invisível aos teus olhos, pois os teus olhos apenas vêm a pureza, e eu já cometi erros inexplicáveis, e o que tu tanto queres ver, nunca verás. Podia até sair de casa e mostrar-me bem à tua frente que não me verias. Eu queria e quero, porque te amo em silêncio, mas as minhas palavras são silenciadas pelo som do erro e a minha respiração ao lado do teu pescoço seria abafada pelas correntes que nos separam. Podia segurar-te na mão com todas as forças que pudesse, mas tu não sentirias. Um dia estava à janela a olhar-te a rondar a minha casa, olhaste para mim, mas eu sabia que não me vias, mas mesmo assim… continuaste a olhar. Foste bater à porta, chamaste por alguém da casa, mas ninguém te abriu a porta. Algo mudou, podias-me ver, mas eu não queria entrar na tua vida, apesar de já o ter feito sem intenção, por mero acaso. Mas não te queria fazer sofrer, por isso não me verás mais, não saberás mais nada de mim. Vou-me esconder dos teus olhos e afundar-me no meu mar de medos e receios. Embrulhar-me-ei em lençóis de infelicidade e fechar-me-ei entre correntes do desespero. Parte de mim deseja que me vejas, mas a outra parte sabe bem que não podes. Por isso nunca mais colocarás os teus olhos sobre a minha pele, pois a tua segurança e felicidade dependem de mim, e das minhas escolhas em relação a entrar na tua vida por vontade própria. Escrevia-te uma carta, mas assim saberias que queria contactar-te. Portanto, adeus, fechei-me como uma concha e atirei-me para o fundo do mar. antigo*
(estou mesmo feliz. acho que não há noção alguma para o que sinto. parece que me livrei de todos aqueles males que teimavam em dar-me as mãos, parece que todos os meus pontos fracos agora tornaram-se em algo distante, parece que os meus pequeninos erros se tornaram num zero, num nada. acho que nem consigo explicar a felicidade que sinto, não consigo. senti-me tão bem.)

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

sonho ou pesadelo?


não é que seja uma obcecada por ti. na verdade, acho que vivo em tua função mas nem dou conta disso. o problema não é não ter quem me dê atenção, carinho e amor, o problema é que parece que apenas tu consegues preencher o que falta de mim. mas desde o dia em que percebi que a única relação que querias ter comigo era amizade, tudo se desmoronou. as esperanças afogaram-se todas neste meu oceano, e tu, seguiste a tua vida. enquanto eu te ignorava, tu questionavas-te porque eu o fazia. mas parece que já tens as tuas respostas, e por isso agora... ignoras-me a mim. é que parece que tudo o que me dizias, todas as coisas me fazias, era por algo mais. mas enganei-me. não é que a tua amizade não me baste, mas sempre pensei que houvesse algo mais. porque tu és diferente.

desta noite lembro-me de muito pouco, mas ainda tenho aquelas imagens na minha cabeça. pegaste nas minhas mãos, e puxaste-me para um sítio qualquer. a única coisa que sei, é que me sentia lindamente. juro que parecia mesmo que me estavas a tocar, as tuas mãos contra as minhas. foi tão... nem consigo explicar.
foi impressionante.
ias-me dizer algo, mas o que sonhamos facilmente esquecemos. e normalmente eu apenas consigo lembrar o que mais me marca. outra passagem desta minha noite foi ouvir-te sussurrar no meu ouvido "gosto de ti" e acordei de repente. e sabes? tenho a sensação de que era mesmo a tua voz. acho que isto foi demais para mim. não sou forte o suficiente para ultrapassar estas minhas coisas, e ver-te a cada dia que passa magoa-me ainda mais, porque sempre que passo por ti tenho uma enorme vontade de te abraçar e de nunca mais te deixar a ti e à tua forma de viver.
resultado deste sonho/pesadelo: uma manhã repleta de dores de cabeça, e ficar sem saber o que fazer.

domingo, 15 de novembro de 2009

agora, quero que vás embora


hoje sei que não vais voltar para casa.
hoje sei que não vale a pena esperar por ti na minha cadeira de baloiço, que não vale a pena ir lá para fora olhar o luar e perguntar-me onde andas, porque hoje, sei que não vais voltar. e para ter a certeza de que nunca mais entras na minha casa, apesar da grande dor que isso me traz vou fechar a porta à chave e vou escondê-la debaixo do tapete da sala.
amanhã cedo, vou pegar no nosso colchão, nas tuas roupas, nas tuas cartas, nas minhas memórias e vou queimá-las. quero deixá-las bem no passado que é ainda o hoje. e porque te foste embora, quero-me ir embora também, porque tudo isto tem um bocadinho de ti, um bocadinho do que foste para mim. por não voltares hoje para casa, é que não te quero mais ver, não quero saber mais de ti. por não voltares hoje para casa, é que eu vou também desaparecer, e não voltar mais a casa. de que vale ficar neste álbum de memórias que apenas me trouxe desilusões contínuas? de que vale continuar neste caminho, que mais parece um carrossel sem fim? de que vale esse sofrimento? neste momento nem sequer te lembras que existo, e que tenho uma dor incessante no meu peito sem poder ser dissolvida nesse sorriso que ficou sempre no meu olhar. e sei que no fim de tudo isto, quando partir, o meu destino vai ser seguir o rasto de mais outra página de mágoa na minha vida. mas que seria da vida se não houvesse dor? a dor torna-me mais forte. e por isso, vou-me atirar ao riacho, e sentir o seu sabor doce, sentir os peixes contra os meus pés, e nadar na água gelada. quando de lá sair, encharcada, a tremer, saberei que estás por perto, porque sei que te dá uma dor no teu peito quando sentes que estou mal. mas quando voltares, irei-te mandar embora, porque hoje, não vais voltar para casa, então amanhã eu não quererei saber de ti.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

cavaleiro andante


Porque foges de mim? A porta do meu abrigo ainda está entreaberta para ti, à espera de ouvir os teus passos pesados e tristes de cavaleiro que acaba de chegar de uma derrota. Quando abrires a porta saberás que continuo sentada no sofá à tua espera, e que quando te vir sorrirei – pois apenas consigo sorrir quando olho para ti. A espera pelo teu regresso foi longa, mas não significará nada quando voltares ao meu abrigo e devolveres-me o meu coração, que te ofereci na tua partida para te sentires protegido, para estares perto de mim. Mas agora habituaste-te à sua presença e não mo queres devolver. Além de triste, és um cavaleiro salteador, pois para ti o meu coração foi o teu mais fácil assalto, não foi? Dei-to de bandeja. A minha ingenuidade foi tua cúmplice. Mas ela voltou para se redimir. Porque não voltas também? Ao meu lado no sofá ainda está o teu lugar vazio, à espera que o venhas ocupar nas noites frias e chuvosas, em que me sinto só, e que sinto a tua falta. Sento-me sempre ao lado do teu lugar, uma das únicas marcas que deixaste foi aquela grande mancha de café mesmo onde te sentas. És um grande desastrado, sabias? Mas eu gosto de ti assim, dessa tua forma de ser. E por isso mesmo é que te quero aqui, ao meu lado! Volta depressa.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

i'm here


gostava que sentisses algo sempre que pensasse em ti. gostava que pudesses saber que a minha alma voa sempre para perto para tomar conta de ti. gostava que soubesses que este texto é para ti, e exclusivamente para ti. para ti.
leva-me contigo, leva-me dentro do teu punho como quem guarda a última moeda; leva-me no teu bolso bem fechado como se fosse a tua preciosidade. leva-me de qualquer uma maneira, mas leva-me. leva-me para longe mas para junto do teu peito. foge comigo, com as tuas mãos dadas às minhas. esconde-me de toda gente para eu ser apenas tua. guarda-me num cantinho só teu e visita-me de segundo a segundo. olha-me nos olhos mais uma e outra vez. olha bem para os meus olhos, o que te dizem eles? "leva-me contigo"
abraça-me duma forma apertada como se nunca me fosses deixar (e, não me deixes mesmo). dá-me um abraço do tamanho do mundo, e daqueles como se fosse o último, sendo um dos primeiros. só quero realizar um sonho. fazes parte de mais um tema da minha mente, e não te vais embora. além disso, não quero. quero que fiques aqui, para sempre. enrola cada fio do meu cabelo entre os teus dedos, dá-me um beijo em cada canto da minha face. tenho um disfarce para não me reconheceres, mas tu já me sabes 'domar'. não és capaz de reconhecer a fera pelo seu rugido?


quando é que percebes que isto é para ti?

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

e tu és


hoje sentei-me na minha cadeira de baloiço à frente da janela. o tempo estava quente, mas começou a chover. enquanto olhava para lá para fora, crescia um enorme desejo em mim de ir ter contigo e te abraçar; vagueavas no meu pensamento e no meu olhar.
as gotas eram grossas e faziam imenso barulho quando rebentavam no meu jardim. ao longe via-se o pôr-do-sol, mais laranja que nunca, e com um brilho que ofuscava os meus olhos. partilhar esta visão contigo seria uma maravilha, e do nada tive outro desejo: que estivesses a olhar para esta paisagem neste mesmo momento, e assim partilharmos uma vista. entre tudo isto adormeci e não sonhei com absolutamente nada, os meus olhos apenas viam o escuro e eu sabia bem que estava a dormir. quando acordei, à minha frente já via a grande lua no seu estado mais preenchido - era noite de lua cheia. Novamente, pensei que deverias estar a olhar para ela e para o seu grande esplendor ao mesmo tempo que eu, mas sabia que era quase impossível. ou não. eu não podia saber, apenas te contactando, mas não o iria fazer.
levantei-me e sentei-me na beira da cama, peguei num livro e abri-o numa página qualquer "Já fizeste um dominó? Já pensaste que a existência humana é tantas vezes assim? Passamos dias, semanas, meses, anos, a construir os nossos sonhos e, num breve instante, alguém tropeça neles e tudo se desfaz e desmorona, numa sucessão de azares impossível de travar. Quando o meu dominó começa a cair, junto-lhe mais peças na cauda e aproveito para limpar fantasmas na enxurrada. Ao menos sofro tudo de uma vez, condenso a frustração num par de dias e fico a enxaguar a tristeza até ela secar ao sol." lembro-me tão bem de estar a ler este livro... a cada página que passava dava-me uma enorme vontade de chorar e dizer tudo isto a alguém, havia sempre vontade e tempo para dar a este livro, é perfeito, até hoje foi dos que mais me tocou. enquanto pensava sobre as minhas leituras, ouvi a campainha. vesti o meu robe e calcei os meus chinelos muito depressa e fui a correr até à porta. Olhei pelo buraquinho da porta e vi-te com um enorme ramo de rosas brancas na mão a sorrir.
tens um sorriso lindo meu amor

sábado, 24 de outubro de 2009

i need you

Transforma-te para o real, e sê uma figura bem torneada perante mim, mostra-te. Eu preciso tanto de ti, tens essa noção? Quero alguém que me abrace e me pergunte o que se passa, que me dê beijinhos na testa e diga que vai estar sempre a meu lado, alguém que nunca me deixe, seja em que momento for. O que quero realmente? Um futuro, principalmente daqueles felizes. Quero um caminho com setas para me indicar a direcção e assim não ter oportunidade de voltar para trás e seguir sempre em frente, nem que tenha uma enorme corda amarrada ao teu coração a puxar-me. Quero um guia, ou antes, quero-te como meu guia para o resto da minha vida. Mas afinal, quem és tu? Nos meus sonhos a tua face, apenas a tua face - o segredo - aparece desfocada. Mostra-te, mostra-me quem és tu afinal. Mostra-te antes que a minha alma feche a porta do meu quarto e nunca mais me deixe sair de lá por falta de coragem, falta de alguém a quem dar a mão.
Estarei a fazer uma tempestade num copo de água? Apenas te quero a ti a meu lado, para sempre, ou por algum tempo (no meu diário os para sempres nunca são verdadeiros, deixei de acreditar nessa expressão) - tempo que me dê tempo e forças para me levantar do chão, e continuar a seguir em frente, agarrada à tal corda puxada pelo teu coração.
Nos meus sonhos mais dramático-românticos (será que isto existe?) imagino-me de joelhos no chão, sob a chuva, com as mãos na cara a chorar, sendo que a chuva são as minhas lágrimas, o meu apoio naquele momento. E do nada apareces, levantas-me, e o sol aparece. Torna-se um sonho cor-de-rosa, com um céu cor-de-rosa, nuvens brancas, e campos cor-de-rosa. Mas isto na minha vida é um nada, porque não posso confiar na minha mente. Porque sempre que imagino algo que quero mesmo muito, desaparece, a oportunidade desaparece e volto a cair pela montanha abaixo, cortada pelos espinhos pelos quais passei pelo caminho, e começo da estaca zero. Sou um nada, sou um pano de seda transparente no meio da noite, a lista preta de um zebra, a última folha a cair da árvore no Outono, o -1 na escala de números.
Apenas vivo no fundo da estrada à espera de te ver chegar com o pôr-do-sol.


e foi o fim de uma semana difícil, ou não.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

estás aí?


Procuro-o em cada recanto da minha memória, em cada marca de lágrima deixada nos montes de livros que li enquanto o amava, e apenas encontro recordações. São tantas e tão perfeitas, mas isso já vai tão longe, é tão passado. E agora? Agora procuro o futuro nas minhas mãos, nos olhos de cada pessoa, nos seus movimentos. Agora procuro-te a ti entre as multidões, procuro-te no meio das paragens para o autocarro, nos corredores, em cada café, em cada sala, em cada caminho e em cada passadeira. Vejo-te tantas vezes como tantas vezes não te vejo, pois foges-me à vista e perco todo o raciocínio. Agora pergunto: estás aí, ou estás apenas a fazer que estás? Andas à minha procura? Quanto tempo mais esperas por mim? Se neste momento eu abrir a janela do meu quarto vais estar lá à minha espera sentado no jardim? Vais estar de pernas cruzadas a olhar com esses teus olhos castanhos reluzentes e a sorrir para mim à espera que te diga para entrar? Ou apenas, não vais estar.
Quando o telefone tocar, se fores tu, diz logo tudo duma vez. Vi-te uma vez ali nas escadas, e outra sentado no cimo do poste. Estás aí?
À dias estavas no meio do céu, e à horas atrás vi-te a ler um livro sentado na mesa de um bar. Estás aí?
E neste momento, estás-te a lembrar que estou à tua procura? Aviva-te a memória se disser que preciso imenso de ti aqui e agora? Espero que sim. Se leres isto, dá um sinal. Manda um bip para a minha mente, que saberei onde estás, por mais longe que seja. Adormeço a pensar em ti, meu ninguém mais que querido, mais que eterno. Estás aí?
Se me ofereceres um presente, não me dês nenhum urso de peluche já tão usado a dizer "I love you", prefiro que me dês as tuas palavras a dizer 'amo-te'.
Estás aí meu amor? Não, não estás. Eu sei que não, mas porquê pensar que não, se se quer pensar que sim? Não te esqueças, estou à tua procura, ninguém.

sábado, 17 de outubro de 2009

reiniciar


Saí de casa a correr para não perder a boleia. Fechei a porta à chave e ainda vinha com a torrada na mão. Não queria chegar atrasada mas hoje adormeci. "Tenho de me despachar!"
Comecei a seguir o meu caminho ao mesmo tempo que bocejava e as lágrimas me chegavam aos olhos. Estava cansada; a noite passada tinha sido horrível. "Porque é que ele me deixou?" Já não me lembrava bem do que se tinha passado, porque tinha abafado todas aquelas informações e lágrimas na minha almofada até adormecer. Fiz um esforço, estava tão profundo que era difícil de arrancar. "Ah... Porque já não me ama." Ao pensar nisso mais uma vez fez-me parar no meio da estrada "Não acredito." Comecei de novo a chorar, mas entretanto um carro elevou a sua buzina e fez-me acordar. Pedi desculpa e continuei a caminhar em frente, sempre em frente. Não queria pensar no que tinha acontecido outra vez, não queria desfazer-me em água salgada de novo. Mas enquanto olhava para os sinais de trânsito, para os placares, para cada montra, para as outras pessoas, via-te a ti. Estavas em todo o lado e não te querias ir embora. "Sai daqui, por favor." Murmurei a mim mesma e fechei os olhos com todas as minhas forças. Peguei num lenço e limpei as lágrimas. Olhei para o relógio e vi que as horas tinham passado mais depressa do que eu queria, portanto já tinha perdido a tal boleia e podia esquecer todos os planos que tinha para hoje: dia estragado, ou seja, mais um dia que tu estragaste, mais um dia que vou passar a pensar no que aconteceu. Sentei-me num banco no meio de um jardim. Peguei no telemóvel e comecei a ver as mensagens que tinha guardado tuas "Tenho saudades tuas.", "Gosto tanto de ti minha princesa.", esta era a mais importante para mim: "Meu amor, tens noção do quanto gosto de ti? Obrigada, um sincero obrigada por todas as tuas palavras de reconforto quando estou mal. Obrigada por nunca me teres deixado quando tinhas mais do que razões para isso. Obrigada por seres tão sincera e humilde. Obrigada por teres entrado na minha vida, e principalmente, obrigada por me amares, porque tu fazes de mim a pessoa que sou." Durante o dia recebia mais de vinte mensagens tuas, mas agora que olho para o que passou, para o que me disseste, vejo que era tudo mentira. Enganavas-me da forma mais pura, mas ainda assim continuava a amar-te. "Sou tão estúpida!" saí do banco a correr e decidi que ia ter contigo para tirar explicações. Isto não podia acabar desta forma, era impossível. Tinhas argumentos sem sentido nenhum, pois não ias deixar de me amar de um dia para o outro. (ou sim?) Bom, não sei, mas de qualquer forma preciso de ver-te e saber se estás bem ou não.
Comecei a correr para a paragem de comboios, mas a linha estava fechada; estava a passar um comboio. "Odeio quando isto acontece." e enquanto dizia isto, vi-te. Estavas do outro lado da rua e olhavas para mim. Estavas a sorrir.

domingo, 11 de outubro de 2009


"Amor, consegues ver bem daqui?"
"Desde que esteja a teu lado, desde que te possa tocar e ver como os teus olhos brilham perante tanta beleza, já me basta."


Estavas com a tua cabeça sobre as minhas pernas, e olhavas os meus olhos directamente, como se nada de mais belo existisse no mundo.
"Sabias que és a minha vida?"
O meu silêncio já afirmava que sabia, não precisava de dizer que sim para teres a certeza de que era mútuo. És a minha vida e vais ser sempre. Tu és tão simples, tão lindo, tão especial. Amo ouvir-te falar, amo ver-te pestanejar. Simplesmente amo-te a ti, e por mim, pela minha felicidade. Porque o nosso amor é a minha (e a tua) felicidade. Porque sei bem que vivemos para nos amarmos constantemente, durante o dia e durante a noite, enquanto chove, e enquanto o sol queimas os meus e os teus cabelos.
"Amo-te"
"Eu também te amo, pequenino"
Enquanto te dizia isto encostei-me um pouco a uma pedra enquanto saboreávamos o sal vindo da brisa do mar. Ambos amamos o mar. Quanto a isso, somos realmente almas gémeas, e quanto à forma de falar e escrever igualmente. Mas só isso, porque de resto, somos completamente diferentes. Mas só o facto de estarmos unidos nos faz ser duas peças de um só puzzle, encaixando de forma perfeita.
Adormeci. Enquanto sonhava, dava por mim a sentir os teus lábios sobre os meus olhos fechados e os teus braços sobre o meu tronco. Consigo sentir e gravar tudo na minha mente enquanto durmo, e neste momento apenas quero relembrar ao meu cérebro e ao meu coração de que é contigo que quero ficar para sempre.
Um sussurro "és perfeita". Acordo e respondo-te com a maior das verdades "és um sonho, eu quero ficar contigo para sempre". E assim foi a nossa noite, os dois deitados sobre a areia a olhar algo que nos uniu.
(é tão bom sonhar)
repito: quero ficar contigo para sempre, mesmo que sejas um sonho

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

o que causas

Uma verdade? Estou farta. Uma questão: porquê? Na verdade, a sorte não tem estado muito do meu lado, ou então anda a fugir de mim a sete pés, entre esses quelhos que são os contratempos na minha vida. As esperanças são todas esmagadas pelo pé de outrem que passou a fazer parte - apesar de, num grau secundário (diria até negativo) - da minha vida. Posso dizer que todas as noites imagino um bocadinho do que gostava que acontecesse, mas no dia seguinte, vai tudo por água abaixo. Recebo um grande balde de água fria pela cabeça abaixo e acordo; Estou a tremer, mas não me importo. Só me importo da maneira como me sinto por dentro, do estado em que o meu coração ficou. O meu corpo agora não importa, pois só o uso para conseguir comunicar, pois se conseguisse que apenas a minha alma fala-se, faria-o, era o melhor.
Mas eu sei que vou ficar bem, e talvez até possamos a ser amigos outra vez. (ou ainda somos amigos? não sei)
Quando falo contigo, tento suavizar a minha forma de estar e falar para pensares que estou bem e que não me importo. Mas tu sabes bem que me importo, e que isto não me deixou bem. Depositei em ti parte do meu eu, achei que podias ser algo com futuro, pois a tua simpatia é fascinante.
Mas agora vejo-te de outra maneira, e quando estás perto finjo não te ver, viro a cara e finjo que não me fazes diferença, o pior é que fazes, fazes-me imensa, principalmente magoas-me quando estás com a outra pessoa. Mas tu não tens culpa, e por isso não vou esperar que me peças desculpa ou que lamentes pois sei que não o vais fazer. Mas eu gostava que o fizesses, sentiria que sabes que existo. Eu gosto mesmo muito de ti, mas deixa, nem tudo o que sonhamos acontece, e tu foste tudo isso. Deveria ter estado no meu lugar, sem dizer nada, sem fazer nada - quieta, pois estas minhas acções podem não ter originado isto tudo, mas foram um pequeno empurrão.
Não te peço nada, porque na realidade não valeria nada. Não vou chorar, mas vou ficar ainda mais cansada com tudo isto, é tudo ao mesmo tempo, e desvanecer no ar. Porque chorar, não o quero voltar a fazer, apesar de saber que é uma missão impossível. Mas maior missão impossível és tu. Estás longe de mim, estás longe daqui

- you're the one who let me down, the one who doesn't care.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

correio da saudade, correio da dor


Olá amor. Estou a escrever-te neste momento porque sinto falta de parte de mim. Partiste há algum tempo, e sei que neste momento não estás sequer a pensar em mim (não contavas sequer receber uma carta minha), sei que tens outra pessoa a teu lado a abraçar-te, a olhar para ti, e a perguntar-te de quem é esta carta. Sei que vais responder que não sabes, por isso vou deixá-la anónima. Sei que reconheces a minha forma de escrever por isso já sabes bem quem sou. O tempo tem passado devagar, e eu tenho tentado seguir a minha vida desde que partiste. Confesso que não tem sido a mesma coisa sem a tua presença. A tua ausência na nossa casa é silenciosa. O nosso cão já não late quando chegas do trabalho e o papagaio deixou de nos tentar imitar quando tínhamos os nossos momentos menos sóbrios e começávamos a dizer que nos amávamos aos berros e entre beijos até os vizinhos virem bater à nossa porta a perguntar se algo de mal se passava. Os nossos pequeninos sabem como me sinto, mas eu não o quero. Quero que eles continuem normais, mas parece-me ser impossível. Gostava de adoptar uma criança, mas este não me parece o momento mais apropriado para o fazer visto que passo o menos tempo possível em casa para evitar olhar para a nossa cama, para o nosso baloiço do jardim, para o nosso sofá repleto de almofadas em forma de coração. Se tivesse um filho teria de ser parecido contigo apesar de me fazer sofrer. Eu queria uma recordação tua que me pudesse acompanhar até ao resto da minha vida. Sabes o que era mesmo perfeito? Uma menina, sabes bem que sempre quis ser mãe de uma menina: com caracóis loiros e olhos castanhos esverdeados, branquinha como eu e com uns compridos dedos nas suas pequeninas mãos. Tenho pensado até em pôr a casa à venda ou tirar umas férias do meu trabalho que se resume em pensar em ti. Árduo não? Não parece, mas podes crer que é, ninguém queria ter este trabalho. Eu preferia até trabalhar nas obras ou algo assim, menos isso. Não sou bem paga mas dá para me sustentar. Tenho ar para respirar, e isso já basta para mim. Ah, no início da carta eu disse que sentia falta de parte de mim, mas querendo dizer bem, sinto a tua falta, porque tu és parte de mim sem saberes, mas ficaste agora a saber, apesar de já teres reparado. Eu sei que quando me deixaste, naquele dia cheio de sol e em que foi dos piores dias da minha vida disseste para eu te ir ligando, que sempre irias estar ao meu lado e que nunca me irias deixar, mas eu deixei-te ir, sem ligar, sem mensagens, sem tentativas de te visitar, com nada. Mas chegou a altura, não aguento mais. Ontem tropecei numa caixa no sótão e creio que está lá desde que te foste embora. Abria e estava cheia de fotos nossas. Tinha umas cartas tuas e umas minhas também, pois como te lembras, no dia em que me inseriste bem na tua vida e quando entraste pela minha casa dentro estivemos a ler as cartas que anteriormente tínhamos enviado um ao outro. Tudo isto entre carinhos e promessas de que era para sempre. Sei que te lembras tão bem como eu e que isso ainda agora não te é indiferente. Agora que sei que estás com outra pessoa não te vou pedir para voltar, era cruel e eu apenas quero o teu melhor. E se o teu melhor é estar com essa pessoa, então eu vou deixar sem me meter. Vou continuar a minha vida outra vez como se não te tivesse enviado esta carta, mas à espera da tua resposta. Sempre foste sincero comigo, sempre te preocupaste, e não ia ser agora que o deixarias de fazer. Ah já me esquecia, deixaste a tua camisa azul dentro do meu armário, aquela que usaste no nosso primeiro encontro. Estava tão lá no fundo que nunca a tinha visto. Foi esquecimento ou foi propositado? Já sabias que mais tarde a ia encontrar, agarrá-la e começar a chorar em cima da nossa antiga cama. Que ia pegar na nossa fotografia no nosso banco de jardim, que permanece na minha mesa-de-cabeceira e sentir, mais uma vez, saudade. Sabes bem que as coisas não mudam de um momento para o outro, foste tu que me ensinaste isso. E por isso eu sei bem que ainda me amas, tal como eu te amo a ti. Nunca te perguntei porque me deixaste, mas sei bem que na noite antes de o fazeres, uma chuva de incertezas caiu sobre ti, e por isso não me quiseste mais magoar e deixaste-me, pensando que acabarias por me esquecer. Mas sei bem que não o conseguiste. Mas deixa lá, eu também não o consegui, estamos quites. Olha encontrei aquele teu porta-chaves que tinhas perdido há dois anos atrás. Aquele em forma da lua em quarto minguante que tu tanto gostavas, estava debaixo do colchão, não sei porque foi lá parar! Mas pronto, está tudo dito. Espero a tua resposta, e tenta que a pessoa com quem estás agora não leia esta carta, não quero empatar ou destruir nada que já esteja construído com cimento. Até um dia.

P.S. “eu dava tudo para te ter aqui.”
não obtive resposta.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

O 33.


A monótona vida alonga perante cada passo do nosso respirar que faz com que tenhamos meros acontecimentos que abanam tudo.
E todas as manhãs, pelas 8:00 horas eu via-te ali, mesmo no banco da frente do comboio. Sempre com o mesmo sorriso, o mesmo olhar. Sempre com o mesmo tom de voz ao dizer “Bom dia”, tão suave mas ao mesmo tempo tão certo de si.
Sentavas-te sempre perto de mim, e por vezes eu via que adormecias e deixavas que a tua cara fica-se junto ao vidro. Eu nunca parei de olhar para ti, apesar de não sentir nada, eu olhava sempre. Os teus olhos castanhos nunca me saíam da cabeça. Cada onda do teu cabelo estava fixa na minha cabeça. Os pormenores em teu redor faziam com que fosses cada vez mais especial, sem eu reparar. Quando saías do comboio para prosseguir o teu caminho, nem sequer reparavas em mim, não olhavas para mim, não dizias “adeus até amanhã” como eu sempre desejei. Apenas saías, e deixavas o teu perfume, mas tudo ficava num vazio.
No dia seguinte de manhã, tudo se repetia: as reacções, as sensibilidades, os movimentos.
Um dia decidi ir para o banco da frente, não sei porquê, mas foi o que me apeteceu fazer. Quando tu entraste no comboio olhaste para mim, e sorriste: “por estes lados menina?
Sorri e acenei que sim. Sentaste-te ao meu lado. Ao longo do caminho não trocámos uma palavra. Chegavas-te a mim, mas eu ficava sem movimento. Encostaste a cabeça ao meu ombro e olhaste para mim. Sussurras-te ao meu ouvido “és tu” e de repente chegou a tua hora de sair. Deste-me um suave beijo no rosto e saíste. Passei o dia todo a pensar nisso. No dia seguinte deram recado que eu tinha de passar a entrar numas paragens mais longínquas para o comboio e assim foi. Umas paragens depois de tu entrares. Entrei com esperança de te ver, mas não estava ninguém. Fiquei preocupada. Em várias semanas eu sentava-me naquele mesmo banco, naquele em que tu disseste que era eu, com esperanças que voltasses e me amasses. Mas nada… Tempos depois, encontrei naquele banco uma espécie de bilhete: “Peço desculpa por ter estado ausente nestes últimos tempos, mas o que tenho estado a fazer, tenho-o feito por ti. Espera pelo 33 de amanhã.” Não entendi. 33?
No dia seguinte de manhã não estavas lá. Passei o dia todo a pensar no que seria o 33. Não desvendei, não sabia. Nesse dia atrasei-me por completo, e para ir para casa, tive de apanhar outro comboio… o 33. ERA ISSO!
Quando entrei olhei em todo o meu redor, mas não encontrei ninguém. Não te vi, fiquei desesperada. Mas de repente alguém me toca no ombro, e..eras tu. Abraçaste-me. Eras o condutor de comboio que me esperava. “desculpa, desculpa mesmo. Mas queria fazer-te uma surpresa. Nestas últimas semanas tenho andado a tentar reservar este comboio só para te dizer uma coisa.
Não estava a entender o que me querias dizer, só conseguia olhar para os teus lindos olhos, só conseguia sentir a batida do teu coração, mesmo à distância.
o que me queres dizer?
Demoraste um pouco a responder, e eu estava tão nervosa, tão ansiosa, mas com medo.
Hesitei durante muito tempo para te dizer isto. Mas a cada dia que passava eu sentia uma coisa que me atormentava da boa maneira, cada vez mais a cabeça, o coração. E tudo isso era por tua causa. A tua presença constante… Sempre senti que me olhavas, que mudavas de atitude quando eu entrava no NOSSO comboio. Sentia tudo. Eu ouvia-te respirar e desejava poder estar ao teu lado como estou agora.
Corei bastante nesse momento, mas queria saber mais, mais, mais! Queria saber se sentias o mesmo que eu.
eu amo-te
meu deus. Nunca pensei que isto chegasse a acontecer, pensei que eras apenas uma ilusão, apenas um rapaz com que… eu sonhava todos os dias. Nunca pensei que tu me dissesses isso, nunca pensei que sentisses o mesmo que eu, nunca pensei que tivesses os mesmos pensamentos que eu. E nunca pensei mesmo que me amasses, tal como eu te amo.


(texto antigo, mas muito sentido*)

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

a-mor?


Ninguém é igual a alguém. Ninguém pode dizer que ama mais alguém que outra pessoa se não sabe. Nem nunca irá conseguir saber se é verdade. Não conseguimos exprimir tudo por palavras, é tão difícil conseguir resumir tudo em frases e textos, nunca sabemos se escrevemos da forma certa ou se usamos o termo adequado. Descrever o amor em livros? Nem os poetas de antigamente conseguiriam fazê-lo correctamente. O livro que mais correctamente descreve os sentimentos é o nosso coração, e por vezes nem é ele, achamos que é, mas quem fala é a nossa cabeça, sem sentir, sem saber. Mas existem tantos casos de amor ao longo do mundo. A nossa vida resume-se a isso: aprender a amar, saber amar, amar, ser amado. Como acham que existimos? Graças ao amor. Fomos criados à base do amor. Em todo o mundo existem infinitos casos de amor. Nem todos são como queremos, e outros são perfeitos.
Conheço uma pessoa que começou a amar um adulto enquanto era criança, e que agora está casada com essa pessoa que amou e tem uma filha; conheço quem ame e perca essa pessoa, mas não é um perder como quando o namorado acaba contigo, é perder para sempre, perder mesmo, sem volta a dar; conheço quem ame e seja deixada, mas continue a amar, e que tenha tido nova oportunidade mas que tudo tenha sido em vão e que agora continue a amar mas que tenha sido deixada de parte; conheço quem ame várias pessoas até encontrar o seu amor verdadeiro; há quem ame e espere, mas que morra a esperar. Nem tudo é tão justo como gostássemos que fosse. Nem tudo é da forma que achamos que devia ser. A vida às vezes gira ao contrário do movimento de rotação da terra, e nós andamos de cabeça ao contrário a respirar dióxido de carbono. Há ainda quem não saiba o que é amar. Há quem nunca saberá, e há quem pense que sabe. Ninguém pode ensinar a amar, apenas temos de aprendê-lo naturalmente, sem empurrões desnecessários e sem pernas que nos façam cair a meio desse caminho tropeço. Não sei explicar o que é amar, mas sei que é falar sem legendas, entregar a vida apenas querendo a vida do outro em troca. Uma verdadeira história de amor é aquela para sempre, não a de passagem. Não amamos como quem anda de comboio, em todas as paragens deve parar para saírem e entrarem pessoas. Não trocamos bilhetes para experimentarmos outros amores de outras pessoas. Amamos para sermos felizes e para ficar, e deixar-se caminhar nessa longa beira-mar que se chama ‘a vida baseada no outro alguém’.
(e que mais? estou feliz*)

domingo, 13 de setembro de 2009

dream.


Não sei, não me lembro bem. Sei que antes não éramos os melhores um com o outro, tenho essa sensação, mas sem certezas. Só me lembro de sentir frio, de aconchegar a minha pequenina menina no meu casaco e de sentir o teu braço na minha anca, a empurrares-me para ti para me aquecer. Foi só assim, simples, e inesquecível. Uma imagem que não me sai da cabeça apesar de ser apenas imaginação, fruto dos meus sonhos. Eras simples. Não me lembro de como era a tua cara, mas eras perfeito. Em silêncio fizeste algo que necessitava. Em silêncio fizeste-me achar que tudo aquilo era o que eu desejava, tudo o que precisava para me sentir realmente feliz. Foste a chave no meio dos meus sonhos perdidos pelos dias. Mas és uma ilusão, e não se vive de ilusões. Apenas te deixo no rasto da memória, meu querido e terno amigo. Não te dou importância a mais, mas não sei como avaliar o meu sonho. Sei que é tudo o que quero, mas será que terei em breve? Ou será apenas a carência a falar por mim? Se esta noite me deres a mão outra vez, jura-me que sempre ma darás dessa maneira noutro corpo, jura, jura que ficas junto a mim. Não quero que prometas, as promessas, essas, não são inquebráveis. As juras sim, são inquebráveis. Jura-me tudo isso, que eu juro que te amarei dessa forma que tanto quero, sejas tu quem fores. Amar em silêncio, ser amado em sonhos. Ter esse carinho tão distante, tão vazio. Sei que em segredo toda a gente tem este tipo de sonhos, mas não quer revelar com a vergonha de ter-se sentido bem num sonho. Mas é uma coisa normal. Sonhos, somos nós próprios que os fazemos, com os nossos desejos e medos. Quero sonhar outra vez contigo, mero desconhecido. Quero a tua mão junto da minha. Vagueio por caminhos incertos, chuto pedras e magoo os pés, deixo migalhas pelo caminho no meio dos sonhos para conseguir voltar para casa, deitar-me na cama e chorar. Chorar porque tudo o que agora fazia parte de mim eram sonhos e não podiam ser tornados algo de carne de osso. Chorar pelas oportunidades não aparecerem. Chorar por querer algo mais profundo, e não fútil como tenho vindo a ter. Chorar porque faz parte, porque faz bem lavar a cara em lágrimas. Salto de liana em liana na selva da minha imaginação à espera de te encontrar mais uma vez entre uns dos arbustos, em cima dum tigre, dentro de uma gruta. Caminho entre as nuvens dos meus pensamentos nocturnos à espera de te ver nas asas de um anjo ou até mesmo a tocar uma harpa. E, na realidade, caminho entre multidões à espera de te encontrar sentado numa cadeira, a conversar com alguém, num sítio escondido a chorar. Apenas quero encontrar-te, porque para já, repito, és uma ilusão.

domingo, 6 de setembro de 2009

feel the climb




Abri a porta do armário e olhei para a minha roupa. É nestes momentos que achamos que andamos a precisar mesmo de ir às compras. Lá fora o céu estava cinzento e a temperatura estava baixa, e daí a momentos começaria a chover. Vesti uma camisola cinzenta de lã para combinar com o tempo, e vesti umas calças de ganga. A simplicidade sempre foi algo que me agradou. Já estava atrasada por isso peguei na maçã mais vermelha que tinha na fruteira, vesti o meu casaco preto comprido e saí de casa. Cá fora não se ouviam pássaros, e as folhas que estavam caídas no passeio estavam cheias de orvalho. Não me apetecia correr, por isso estava decidido que ia mesmo chegar atrasada ao trabalho outra vez, ultimamente tem sido sempre assim: durante a noite não consigo dormir, por isso ponho-me a ler até muito tarde, e de manhã tenho de me levantar cedo, mas adormeço sempre. Não me preocupo muito com isso, pois assim tenho muito mais que fazer no trabalho e não necessito de pensar noutras coisas em que não devo pensar, não preciso de pensar na minha vida. Estava vento, e o meu cabelo voava para as minhas costas sempre que eu tentava colocá-lo na minha frente. Apertei-me contra o casaco e continuei o meu caminho. Ouvia o relógio da igreja avisar-me de que já era tarde e que eu me deveria despachar. Já estava perto, portanto não me ia preocupar com o tempo. Ninguém me diria nada, eu apenas queria paz. Quando entrei pela porta dentro da empresa, dei conta que ninguém tinha reparado na minha ausência, nem na minha chegada. Abri a porta do meu escritório, despi o casaco e instalei-me cuidadosamente na minha cadeira. Nada poderia mudar aquele dia tão igual aos outros. Por momentos desejei que a minha vida mudasse um pouco, mas essa ideia tão depressa surgiu como desapareceu. A minha vida era aquela, como poderia eu mudá-la com o meu simples pensamento de jovem? Comecei o meu trabalho, e o dia continuou a correr.
Quando dei conta, as horas tinham passado como se estivessem num corta-mato contra as minhas tarefas, e parece que venceram a corrida. Era já noite, e eu tinha de ir embora. Parece que não estava tão capaz de acabar o trabalho a horas quanto pensava, pensei para mim “estou mesmo a precisar de dormir”. Saí do edifício a correr como se algo de muito mau tivesse acontecido. Estava escuro. Comecei o meu caminho, e senti um enorme arrepio pela coluna acima, tinha-me esquecido do casaco no escritório, mas também agora não ia voltar atrás para o ir buscar, teria de aguentar até chegar a casa. Caminhei com os braços entrelaçados ao meu corpo, estava a congelar. Senti uma leve pinga no nariz, e do nada apareceram milhares de pontinhos à minha frente, começara a chover rapidamente e eu não tinha nada que me pudesse abrigar comigo. Mas eu não me importei, adoro ter a roupa encharcada, apesar de depois ficar constipada e as coisas se agravarem, mas isso é outra coisa. Na verdade, eu amo quando chove. Estava desejosa de chegar a casa e sentar-me na janela a ler a minha mais recente aquisição “Juntos ao luar” ao som da chuva, é tão bom. O frio começara a tornar-se insuportável, mas eu não dei valor a isso, tinha o coração quente, mas vazio. Sempre tivera essa sensação, mas nunca lhe ligara muito. Sempre vivi assim. Ouvi barulhos, e acho que até dei um pulo, mas não tenho bem a certeza. Começou a trovejar, não tenho medo, mas não sou nenhuma admiradora de trovões e raios. Corri, corri, corri. Corri até encontrar um abrigo. Sentei-me num banco de jardim que estava coberto por uma árvore. Comecei a pensar que tudo isto não fazia sentido, que tinha de mudar realmente a minha rotina, isto começava a tornar-se desconfortável. Senti uma mão no meu ombro: “Menina, quer que lhe empreste o meu guarda-chuva para voltar a casa?” era um senhor que já tinha visto, mas que nunca tinha realmente reparado nele. Tinha olhos em tons de castanho claro e verde, a sua pele era clara e tinha a barba por fazer. O seu sorriso acentuou-se quando me virei para ele. “Muito obrigado, mas eu não me importo de ficar à espera que a chuva passe, não há-de demorar” bom, normalmente nunca aceito ajuda de estranhos. “Aceite. Eu levo-a a casa”. Acabei por aceitar. Caminhámos lado a lado, sem uma fala, sem um olhar. Ele deixou-me à porta de casa e não disse mais nada. Entrei dentro de casa e fui directa à casa de banho. Enchi a banheira de água e espuma, tirei a roupa e mergulhei nela. Fiquei a olhar lá para fora até adormecer. Sabia que a minha vida iria mudar, e que a tempestade tinha passado.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

(?)


Sentei-me na berma da janela e olhei o mar. A maré aproximava-se e a areia estava quase toda tapada pelo deus marítimo. Senti-me só mas na realidade não estava sozinha, o mar e os pássaros eram a minha grande companhia naquele momento. A brisa fazia com que o meu cabelo voasse e o cheiro fazia-me sentir pura e feliz. Embora não houvessem pessoas nas redondezas eu sabia que não demorava até ouvir passos e conversas de vizinhos. A rotina recomeça cada dia, e já era muito tarde para eu conseguir ouvir alguém. Não queria sair dali até um novo dia recomeçar, pois eu só tinha um motivo nos meus pensamentos e o dia seguinte seria a mesma coisa. O motivo eras realmente tu, quero-te aqui comigo e não te posso ter. Imaginava-me a chorar por não te ter e ao fundo da rua ver o teu lindo sorriso, os teus olhos perfeitos, a tua silhueta espantosa e a tua voz que eu reconheceria a kilómetros de distância. Via-te correr para mim e abraçar-me, dar-me beijos nas partes da minha face que estavam percorridas de lágrimas e dizeres-me que nunca me deixarias sozinha nem abandonada no meio da estrada. Escreveria mil e uma história sobre a nossa história, escreveria os meus pensamentos aperfeiçoando a realidade para pensares que realmente tudo era perfeito, faria tudo por ti, apenas para te voltar a ter aqui. Quero voltar a tocar-te no cabelo e delinear a tua face. Quero tanto tudo de volta…
À umas noites atrás sonhei contigo, toda a noite, desde que adormeci até acordar de manhã cedo. De manhã sentia-me aterdoada pelo que vi, pelo que senti mesmo estando a dormir. Era tudo perfeito, tal como eu gostaria que continuasse a ser, neste presente que agora está numa linha recta. Ontem vi uma pessoa com o seu irmão ao colo, a abraçá-lo e acarinhá-lo como se fosse a sua vida, e como se nunca se fosse separar dele. Gostava de poder ter alguém assim a meu lado, ter um caso ternurento e com vida. Ter a perfeição de mãos dadas às minhas.
Fiquei com alguém na cabeça que me relembrava de ti, vi-o algumas vezes e havia tempos em que não me saia da cabeça, em que não queria deixar o meu pensamento, mas eram apenas visões, não podiam ser tornadas realidades porque a pouca distância que existia entre nós não era possível para estabelecer uma relação, estava perto mas estava também muito longe. Sabia que já me tinha visto e reparado em mim, mas não sabia se teria tido a mesma sensação que eu pois pode não ter passado o mesmo que passei contigo com uma pessoa que eu lhe fazia lembrar. São tudo coisas da minha cabeça, tudo sonhos, apenas isso. Agora sei que nunca mais o vou ver, mas também sei que agora já não te amo como te amava. As coisas têm sempre a sua altura de mudar, têm sempre os seus ventos que levam o que passou, vendavais e em seguida sol, muito sol, para dar as boas-vindas a novos sentimentos.
Deixei cair as minhas armas, mas a batalha está quase vencida pois os meus soldados ainda não desistiram.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

ficção


Gostava que pudesses morar ao meu lado sem saberes da minha existência. Poder ver da janela do meu quarto a luz do teu desligar-se, e assim saber que ias dormir, que ias partir para outro mundo por umas horas. Podia acompanhar-te. Podia todas as manhãs ver-te sentado à varanda a olhar o sol – os teus olhos brilhavam sempre, brilhavam muito - , ver-te cortar a relva, ver-te andar de bicicleta a dar voltas e voltas num mesmo círculo. Podia saber quando saías, quando voltavas, quanto tempo demoravas. Podia ver onde estavas de vez em quando, tudo apenas da janela do meu quarto. Apenas saber como era a tua vida me bastava. Não fazer parte dela? Importava-me, mas nunca tinha havido oportunidade de me encaixar na tua rotina, passo o dia a olhar pela janela para saber onde andas, como estás. Às vezes vejo-te chorar, não sei porquê, mas sei que te dói muito o coração. Sei que és lindo por dentro sem nunca ter falado contigo, sei quando estás feliz, sei quando estás angustiado. Conheço-te melhor do que ninguém, e tu não o sabes. Sabes que vive uma menina na casa da frente mas não sabes como se chama, não sabes de que família é, não sabes a sua idade, não sabes nada de nada sobre ela.
Os sonhos passaram a realidades mais que veridicas, e à uns dias que te vejo rondar o meu lar, parece que a curiosidade despertou em ti, pois nunca vês ninguém cá fora, mas sabes que vive aqui gente. Vês o meu pai a ir buscar o pão, vês a minha mãe sair para fazer compras, mas nunca me vês no jardim. Nunca me olhaste. Sou só, estou sempre no meu quarto – o meu refúgio. E tu estás assim, a tentar encontrar-me, sem eu poder mostrar-me. Escondo-me também, não quero nunca que me vejas, gosto do mistério. Sei que se algum dia me vires eu serei invisível aos teus olhos, pois os teus olhos apenas vêm a pureza, e eu já cometi erros inexplicáveis, e o que tu tanto queres ver, nunca verás. Podia até sair de casa e mostrar-me bem à tua frente que não me verias. Eu amo-te em silêncio, pois as minhas palavras são caladas pelo som do erro e a minha respiração ao lado do teu pescoço seria abafada pelas correntes que nos separam. Podia segurar-te na mão com todas as forças que pudesse, mas tu não sentirias. Um dia estava à janela a olhar-te a rondar a minha casa, olhaste para mim, mas eu sabia que não me vias, mas mesmo assim… continuaste a olhar. Foste bater à porta, chamaste por alguém da casa, mas ninguém te abriu a porta. Algo mudou, podias-me ver, mas eu não queria entrar na tua vida, apesar de já o ter feito sem intenção, por mero acaso. Mas não te queria fazer sofrer, por isso não me verás mais, não saberás mais nada de mim. Vou-me esconder dos teus olhos e afundar-me no meu mar de medos e receios. Embrulhar-me-ei em lençóis de infelicidade e fechar-me-ei entre correntes do desespero. Parte de mim deseja que me vejas, mas a outra parte sabe bem que não podes. Por isso nunca mais colocarás os teus olhos sobre a minha pele, pois a tua segurança e felicidade depende de mim, e das minhas escolhas em relação a entrar na tua vida por vontade própria. Escrevia-te uma carta, mas assim saberias que queria contactar-te, que me preocupava. Portanto, adeus, fechei-me como uma concha.

Obsessão por ti? Não. Obsessão pela tua felicidade, obsessão pela tua vida.

SONHOS TORNADOS REALIDADE, E REALIDADES QUE SÃO APENAS SONHOS

sábado, 15 de agosto de 2009

the most important?


Todos os passos que damos constroem o nosso futuro e o nosso dia-a-dia. Durante esse caminho adornado por pedras, pontes, cordas, flores que fazem com que a vida não seja apenas uma linha recta conhecemos novas pessoas que vão-nos marcar e vão fazer parte da nossa vida, e outras que apenas estão de passagem ou que nos tocam no ombro ao caminharem do lado contrário ao nosso. Vamo-nos conhecendo a nós próprios e descobrindo o porquê das pedras e das pontes existirem. Toda a vida tem um porquê, tem razões. Todos nós queremos ser algo ou alguém, e vamos aprendendo ao longo da nossa caminhada, sem direcção conhecida, mas sempre sempre com alguém de mão dada à nossa. A minha vida tem os membros da família mais importantes, os amigos mais importantes, as músicas mais importantes, os momentos mais importantes, os locais mais importantes, as falas que foram para nós mais importantes - todas essas coisas contribuíram para a direcção a que hoje seguimos. Eu já tive a pessoa mais importante na minha vida, já tive, digo bem. Agora continua a ser importante claro, mas já foi mesmo o mais importante, que se encontrava acima de tudo e de todos. Mas numa encruzilhada seguimos direcções diferentes e separámo-nos. Não tenho bem a certeza se foste feliz comigo, mas creio que sim. Para conseguirmos prosseguir temos de ter propostas, fazer escolhas, e ter oportunidades. Ultimamente a vida tem-me dado algumas oportunidades, mas todas elas com um senão, todas elas com uma nódoa negra pelo meio. Não, assim não consigo ser feliz, mas isso é um aparte. A ti a vida deu-te uma oportunidade de ouro, aceitaste-a e fizeste bem. Todos nós temos direito a ser felizes, não é? Quer seja com que seja. Ainda mais porque eu sei que a tua oportunidade foi merecida, das duas partes, e porque confio em quem agora cuida de ti, confio mesmo.
Existe um papagaio que me puxa sempre a frente, deixa-se ir pelo vento e quer fazer o mesmo comigo, não quer que me prenda ao passado e às minhas memórias, quer que eu olhe pelo meu futuro e quer que eu me alegre mais. Sei que um outro dia qualquer também hei-de ter a minha própria oportunidade pois o meu papagaio não se engana, ele apenas quer o meu bem. Salto por cima de pedras, colho flores, atravesso pontes com suaves abanões do vento e sem olhar para baixo e agarro nas cordas com toda a força para conseguir passar por cima de leões, cobras e o furioso rio, para assim passar para o outro lado do abismo e seguir sem setas, sem tabuletas, sem mapa. Um dia hei-de receber um abraço de alguém que me conhecerá. Secalhar até já conhece, não sei, ainda não veio ao de cima e eu não consigo ver. Ouço silêncio e vejo tudo preto. O saco está vazio e só existem migalhas sem valor algum. Um dia vou receber um abraço que me vai fazer dizer a mim própria "obrigada pela oportunidade, obrigada". Mas enquanto isso não acontecer, limito-me ao que agora é mais importante, ao que me agarro com todas as forças para me fazer respirar, para me fazer viver.
Estou bem assim, mas quero ser mais, quero um maior brilho, quero sentir mais entusiasmo, quero-me sentir amada, quero sentir-me realizada. Quero novamente aquelas expressões que o mais importante me fazia ter, quero sorrir daquela maneira, quero sentir o que senti, quero estar como estive todos aqueles dias. Quero felicidade pura.
just breathe

terça-feira, 11 de agosto de 2009


Nada me parece possível quando opto pela linha de comboio. Percorro-a saltando de tábua em tábua, olhando a natureza que parece ser impossível, sentindo o cheiro a malmequeres que ainda se vêm entre as silvas. Não ouço nada a não ser o chilrear dos pássaros e os grilos. Gosto tanto de ouvir os grilos, são umas criaturas tão magníficas, têm um som maravilhoso que faz-me derreter dos pés à cabeça, é mágico. Não consigo pensar noutra coisa se não no que estou a sentir. Sinto-me algo diferente, mais normal que antes. Estou bem a percorrer esta linha, sei que um dia chego à paragem a que tenho de sair sem ter que apanhar o comboio. Mas as suas rodas são mais rápidas que os meus passos, e como eu não o quero apanhar – não quero ser apressada, as coisas levam o tempo necessário para serem feitas – ele apanha-me a mim. A minha inocência leva-me às portas do outro mundo, e sem querer, saio dali a voar. Apenas queria continuar aquela sensação, como quem se senta na ponta de um banco a chorar e alguém nos olha e vai-nos dar o seu ombro, é tão bom sentir alguém preocupado connosco. Mas acabou, fiquei nos carris, com os meus sonhos completamente esmagados, com a alma devastada em pó. A última coisa que queria era ser apanhada de surpresa pelo destino que corre mais depressa que o vento, mas aconteceu. Os sonhos foram para dentro de uma caixa junto de muitos outros, e eu continuei a caminhar, noutro lugar qualquer, por uma terra qualquer, num mundo qualquer a que ninguém tem acesso. Um mundo meu, em que todos estão mas também não estão. São completamente invisíveis aos meus olhos, continuam os seus caminhos sós, e apesar de sós, continuam felizes. Tal como eu: feliz. Não a pensava alcançar desta maneira, mas quem manda em nós lá sabe o que será. Ando junto do mar, passeio pelo meu jardim, colho flores, escrevo, leio e rio. As minhas gargalhadas ouvem-se em todo mundo, e eu consigo ouvir as gargalhadas das outras pessoas sem as ver. Só mesmo para transmitir a felicidade geral que este mundo nos proporciona. Seremos sempre felizes, depois do fim, e antes do recomeçar, seremos sempre, temos apenas de encontrar o nosso caminho, seja ele a linha de comboio, a beira-mar, uma ponte, um raio de sol, a sombra. Apenas seguiremos o nosso instinto juntamente do nosso coração, eles irão-nos guiar pela direcção certa, sempre. Não se enganam, e dão-nos pistas para termos sempre a vida que merecemos, apenas temos de acreditar que sim, o nosso futuro existe, já está programado, apesar de acharmos que somos nós que o programamos. Já temos um lugar para nós ao longe, ao sol, no quentinho, no bem-estar. Mas eu imaginava-te de mãos dadas comigo ao meu lado naquela linha de comboio que fez com que tudo mudasse. Contigo sabia que me sentiria em segurança, que me protegerias para sempre, que me salvarias do mal que me pudesse acontecer, que te atiravas para o meio da linha para assim morreres na minha vez. Mas as escolhas foram feitas pelo nosso Pai e ele decidiu assim. Mas mesmo assim, eu sabia isso tudo porque tu és o cuco do meu relógio – a minha razão de acordar. Sei que vais estar sempre a meu lado doutra maneira, pelo pensamento, e que nunca me vais deixar, porque gostas de mim, sou importante para ti, sei-o bem, e também és importante para mim. Mas na realidade, só queria que me visses agora, a forma como me rio, como olho para as pessoas, a forma como segui em frente sem ser preciso me amares, só queria que visses tudo isso, pois eu sabia que te orgulharias da forma como progredi sem teres de colocar o teu dedo duma forma diferente da que agora colocas na minha vida. Pelo menos deste-me a oportunidade de poder continuar abraçada ao teu coração.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

meu protector.


Todas as manhãs saia da minha casa arrastando a rede de peixe que servia de porta e olhava para o meu orgulho. O mar. Eu vivia à frente do mar, e todas as noites adormecia enquanto o som das ondas me embalava, e sonhava aconchegada ao seu cheiro a sal. Era como se fosse meu pai, sempre presente para me ajudar, sempre lá quando eu chorava – chorava a sua água, eram lágrimas salgadas, estava lá para me ouvir nos dias em que eu não aguentava viver mais. Sempre que saia com o meu barco – o esquecimento – sentia-me livre, sentia que podia ir para o meio do oceano e contar a todos os seres o que sentia, e estes compreendiam-me. Sentia-me vazia, como quando acordamos mais cedo e vamos ver se o padeiro já trouxe o pão, e o saco está vazio. Navegava com todas as minhas forças, ia para longe, podia sair de manhã cedo e apenas voltar no dia seguinte, mas pelo menos voltava feliz e não iria transmitir as minhas sensações mais escuras para as pessoas que em casa me esperavam preocupadas, apesar de estarem habituados a estas minhas saídas com o mar, o meu companheiro, meu pai, meu protector. Numa noite de Agosto em que estava muito calor e eu não consegui descansar os meus olhos sentei-me no parapeito da janela e olhei o horizonte. Estava cor-de-laranja, apesar de já ser bastante tarde. Mas era sempre assim, o sol pousava tarde, deixando os raios entrarem pelas persianas pela última vez no dia e nos darem um ar carinhoso, como quem nos dá as boas noites. Nessa noite apetecia-me realmente dormir, mas não conseguia, era-me impossível. Sentia-me pior que nos outros dias, e o calor acentuava a situação. Parecia que começava a alucinar, e vi-te. Vi ao longe um barco com um homem, tinha os seus cabelos ao vento e estava na ponta do seu barco. Tentei ver o nome do barco, e não era um nome normal. Fui buscar os meus binóculos, e quando voltei já não vi barco nenhum. Tinha desaparecido como quando um rato corre para o seu buraco, para o seu aconchego, longe do gato que o amedrontava. Fiquei tonta. Tive um flash e isso não era normal. Tinha sido tudo fruto da minha cabeça. Sentei-me na cama e adormeci, como a bela adormecida. Sentia que não iria acordar mais, dando lugar à areia, espinhos. E sentia-me apavorada por dentro, vi um alguém desconhecido que me despertou atenção, e fez-me ter sonhos estranhos, em que não sentia o vazio enquanto dormia. Quando acordei suava por todos os lados, não sabia o que me tinha acontecido. A cama parecia que tinha acabado de chegar da guerra, devo-me ter mexido tanto durante a noite que devo ter acordado quem dormia abaixo de mim. Eram 6 da manhã e eu não aguentei mais, vesti a minha gabardine, pus a trela à minha cadela que me acompanha sempre quando viajo de barco, a Lucky e saí de casa a correr em direcção ao mar. Tropecei numa rocha e caí de cara na areia, enquanto o mar me puxava para si. Eu só queria fugir dali, queria ter a sensação que tive de novo. Adormeci de novo. Acordei com o latido da Lucky sobre os meus ouvidos, ela estava ao meu lado a tentar aquecer-me e a tentar puxar-me para o mais longe possível da beira-mar. Estava encharcada, mas nem isso fez-me parar. Apesar de não estar em condições, armei-me em louca e fui a correr até ao esquecimento. Eu queria navegar, e tinha a certeza que aquilo não era uma miragem que passou perante os meus olhos para me atormentar. Eu não merecia isso. Só tentava mudar tudo, só tentava não me sentir tão vazia preenchendo o tempo a contar histórias ao mar, a mergulhar nele, a dedicar-me a ele. Mas apesar do meu amor, não era suficiente. Precisava de alguém de carne e osso que me ajudasse. Ouvi trovões, e senti a chuva nos meus cabelos. Isto não era bom. A Lucky começou a ladrar e barco começou a baloiçar no mar enquanto começou a chover fortemente. Eu tentava acalmar o barco mas este movia-se como quando um bebé empurra o seu patinho na banheira para baixo, para vê-lo subir e mexer-se de um lado para o outro, até parar. Enquanto tentava manobrar o barco escorreguei e caí de joelhos. Não evitei, e deixei-me chorar e gritar ao meu protector porque me estava a fazer isto, porquê. Estava a enlouquecer, só queria ter uma vida serena. Não era pedir muito, pois não? Abri os olhos e ao longe vi um barco que se aproximava de mim. Esfreguei-os para ter a certeza de que não era um sonho, e vi o homem outra vez, com os seus cabelos ao vento a olhar para mim e a controlar o seu barco para chegar até cá. Nos escassos e longos segundos que se sucederam, li o que estava escrito no barco “LUA CHEIA”, era o seu nome. De repente senti uma terna paz dentro de mim, e um longo silêncio. Quando acordei a primeira coisa que vi foram os seus olhos castanhos a brilharem ao verem os meus. Eram tão lindos, tão puros, tão perfeitos. Ouvi-te: Está bem? Mas apenas consegui dizer: Lua cheia. E adormeci outra vez. Nos meus sonhos continuava a ver aquele homem que não sabia o nome, mas que agora sabia que amava. Que por magia amava, sem saber nada dele. Apenas por ter estado no momento certo, no sítio certo. De repente dei um salto da cama porque não sabia o que realmente se tinha passado. E ele disse-me que o meu barco virou e eu desmaiei. Que eu fiquei como por milagre agarrada numa tábua com a minha queria Lucky ao meu lado, sempre a proteger-me. Agradeci-lhe do fundo do meu coração, não lhe poderia pagar de outra maneira. Mas ele disse-me: Pode pagar sim, minha querida. Eu fiquei confusa. Não era possível pagar com dinheiro tal coisa! Não tinha tanto para lhe dar quanto eu gostaria. Mas continuámos no silêncio. Nessa noite levantei-me e percorri o corredor da casa daquele desconhecido até encontrar o seu quarto. Quando abri a porta, vi-o a dormir. Estava vestido, tinha tido demasiado trabalho comigo e adormeceu logo. Olhei-o e reparei nos seus fios de cabelo, pretos e brilhantes, vi a sua pele seca e gasta, como de quem viaja demais e não tem tempo para se hidratar. O seu corpo era forte e perfeito, tal como ele. Perfeito. Deitei-me ao lado dele, e acarinhei-o. Ele abriu os seus olhos e eu disse-lhe: Sou como a lua um dia antes de ser completamente cheia. Pareco feliz quando só estarei completamente feliz no dia seguinte. Desvendaste o meu enigma mais depressa do que eu própria. Amo-te. Obrigada.
Ele respondeu: O meu nome é esperança, e eu amo-te por teres esperado por mim, sem saberes que eu te procurava.
E eu não estava desiludida com o mar, o meu grande protector, pois ele pôs-me em perigo porque sabia que alguém me salvaria, e eu seria feliz por encontrar o pedaço que me tapava o vazio. Ele não me fez ter flashes, fez-me ver que a realidade esperava por mim, mas que eu não conseguia aceder a ela. E por isso, fez tudo por mim. Abraçou-me da melhor maneira que podia, e fê-lo de uma forma que me fez amá-lo ainda mais.