quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

do u know?



Caminhando pela rua fora, sinto-me uma sem destino. Poucas são as luzes da estrada que se encontram acesas e, as poucas que restam nesta rua quase sem vida, estremecem de uma forma que me parece tresloucada. Sinto-me só, e não há uma única casa que não seja habitada. A minha? Já está longe. Sinto que estou a caminhar há horas, mas é mentira, acho eu. O único sítio aonde irei parar é em frente à tua porta, nem que demore até ao amanhecer a chegar lá. Preciso de me sentir perto de ti, mas tu não deixas. Afastas-me, e nem dás por isso. Ou dás. Não sei.
Vivo numa guerra constante entre o meu coração, e a minha restante sanidade mental que não me permite dizer-te o que sinto. De vez em quando, esse meu fraco órgão propulsor consegue atirar-se para a frente, estando em ínfimo avanço perante o meu cérebro – e eu deixo-me ir, dando pistas demasiado óbvias de que te quero; mas depois, não sei como, ele mais uma vez perde forças e deixa-se, novamente, ficar para trás. Não há um dia em que isto não aconteça, e é por isso que preciso de estar na tua presença para, finalmente, conseguir compreender o que é que se anda a passar dentro de mim. Porque, por mais que tente, esta máscara que me adorna o rosto já não é a mesma que eu tinha há tempos… Ela começou a envelhecer e, junto dela, também eu me comecei a sentir como um trapo. Se calhar é por andar demasiado tempo à deriva. Habituei-me a isso, e agora é como se não me importasse. Só que quem muito anda à deriva acaba por parar em algum porto, e eu pensei que tu fosses o meu… Mas, pelos vistos, não o és. Ou se o és, não o demonstras! E não há mais forças para continuar a navegar sem destino neste oceano ao qual dou ao nome de dúvidas há tanto tempo.
Depois de reconhecer os três algarismos que fazem parte da tua morada, a qual não conhecia mas que agora reconheço, paro. As janelas têm todas uma pequena luz a iluminar cada divisão da casa – pelas minhas contas, estás no último andar. Sei exatamente o que estás a fazer, o de sempre… E é por esse mesmo motivo que não me preocupo que vás aparecer e que me apanhes a “espiar” pequenos pedaços que fazem parte da tua vida: só te quero sentir perto de mim, compreender como é que vives, se estás sempre tão bem quanto demonstras e…
Congelo.
Respiro fundo.
Fui apanhada em flagrante. Agora, sabes o meu suposto segredo – que se encontra tão bem estampado no meio da minha testa, nas minhas mãos, nas minhas pernas e no meu peito. Resta saber se para ti era novidade. Olhas para mim, e sorris. Não sei se o fazes para me dar uma garantia de que está tudo bem, ou para me dares a compreender que sabes, e sempre soubeste, tudo o que nutro por ti. Tenho medo.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

no fundo



Porquê é que nós, seres humanos, temos uma tendência para insistirmos profundamente no que sabemos não ter futuro? É como se, sabendo o fim do filme, teimássemos em tentar mudar-lhe o argumento quando este já está impresso e pronto a ser decorado pelos atores que nós somos nesta vida desde que nascemos. Não há volta a dar – não podemos tentar ter a audácia de olhar para trás como quem está no último lugar do autocarro a admirar o pôr-do-sol no final da tarde para tentar esquecer o fato de que estamos a ir embora; não podemos atirarmo-nos para trás porque o poder do tempo empurra-nos para a frente.
O livro do decorrer da nossa vida está escrito há muito tempo e não vai haver novas edições: já estava destinado eu estar aqui, sentada, a pensar em ti e a escrever sobre a inexistência da nossa relação amorosa. Oh, sabes que te amo? Sei que sim. Mas teimas em ignora-lo, e eu teimo em trazer este meu sentimento à tona a todas as horas. Tento empurrar para ti um pequeno barquinho de papel, mas é demasiado fraco – não chega a ti, que estás do outro lado do rio. E por ser tão frágil, também eu o sou. E não sou capaz de, diretamente, dizer que preciso de ti. Na verdade, nem indiretamente. Mas continuo a persistir e a pensar em ti com tons aveludados. Só que, logo de seguida, sem me dar tempo para decorar os teus traços a sorrirem para mim, a realidade sopra esses pensamentos para bem longe e obriga-me a ver verdadeiramente o que se passa à minha frente. Nada. Pois, não se passa nada, mas mesmo assim o meu âmago leva-me a achar que sim. E é por isso que, a toda a hora, me sinto afundada nos meus próprios pensamentos, que me aldrabam e me fazem sofrer quando, finalmente, consigo vir à superfície respirar o amargo oxigénio da realidade.  
E tu nunca estás lá para me ajudar a sair dessa água maldita.

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

shaking hands with the devil


Limitamo-nos a amar. Incondicionalmente, profundamente, e sem limites. Fomos talhadas para dar tudo e, esperando sempre algo em troca - porque amor com amor se paga - morremos sentadas na cadeira desconfortável do esquecimento. Temos a mania de dar tudo de nós, toda a nossa essência, e depois não nos retribuem... E é por isso que as mulheres são umas apaixonadas constantes, umas românticas de génese e às quais chamam de seres inferiores de quando a quando: calúnia! Podemos não ser uma reencarnação da Virgem Maria, mas também não somos uma personificação de nenhum tapete de entrada. Não podem fazer o que querem de nós... Mas é hábito. Usam-nos uma vez como se fôssemos um mísero lenço de papel no meio de um pacote com tantos outros e deitam-nos fora; e assim o fazem com muitos dos outros. Apesar de, depois de espezinhadas e termos visto um dos filmes da saga Despedida Sem o Adeus, nos deixarem abandonadas no bando do jardim das traseiras, vamo-nos mantendo inteiras.
Ainda existem aquelas a quem  os homens olham como se fossem um deles. A amiga do peito, que supostamente vai estar sempre ali aconteça o que acontecer e a qual pode tratar da maneira que lhe apetecer porque ela, em tempo algum, vai embora. Outra mentira. Nós não somos de ferro e muito menos temos músculos mais fortes nos braços do que o próprio coração. Não queremos ser tratadas como os amigos do sábado à noite e não conseguimos encarar tudo o que nos dizem com uma cara satisfeita. Como é possível ver de forma bem carregadas, temos sentimentos. E os meus, pelos menos, ferem-se facilmente: principalmente quando ao longo do tempo vou engolindo cada vez mais sapos por causa de um único sapo (que coisa mais poética de ser dizer!), havendo com certeza uns mil e um príncipes perto de mim à espera que eu os abrace com o olhar; ou não. Mas não importa.
O nosso maior problema é que quando temos a nossa vida para alguém, esquecemo-nos de todos os outros. E estando completamente enterradas por esse sentimento, não olhamos à volta, não conseguimos enxergar a realidade e compreender que, esta vida de "compincha" de fim-de-semana sem sentimentos, não é para nós. Apesar de nem todos os homens serem assim, será tempo para a revolta?

terça-feira, 20 de novembro de 2012

fallen in your ghost arms

Senti-me desolada e frustrada quando me apercebi que já não havia mais nada a fazer em relação a nós. Essa palavra, nós, nunca ia ser mais do que um par de pessoas que conversam na maioria das vezes sem fazer sentido, e que partilham uma amizade a que posso dar o adjetivo de estranha; apesar de ter tentado praticamente de tudo, nós nunca ia ser o sinónimo de dois seres que caminham lado a lado, não de mão dada literalmente, mas com os corações entrelaçados - apercebo-me agora, que não chegámos nem perto disso. Durante muito tempo estive cega - mas não nego continuar a está-lo - e achei que, juntos, podíamos ser tudo. Tinha esperanças que percebesses que somos perfeitos um para o outro (mesmo que isto soe a cliché), só que pelos vistos só eu é que conseguia compreender isso. Talvez porque não era verdade: mas no meu ente fazia sentido. E no momento em que escrevo estas palavras, elas continuam a fazer sentido, só que sei que não vale a pena. Os meus esforços nunca foram suficientes, e agora que praticamente me vou arrastando em vez de dar passos em frente, muito menos consigo o que quero. Ou queria? Ou quero? Não sei. Já não sei de nada. Sinceramente, acho que nunca soube - se tudo o que eu ansiava não tinha bases, tudo o que imaginei não foi mais do que outro mero capítulo nesta minha história onde o final ainda está longe.
Assim, deixo-me a dançar nesta corda-bamba, esperando um dia acordar e ter esquecido tudo. Por completo.
Eu própria já não faço sentido

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

stuck in my own voice


É difícil dizer que se tem saudades quando sentimos que estamos a falar para uma parede. Ou melhor, escrever. É difícil soprar todos estes vocábulos para aqui, de forma desordenada - num tanto te quero perto, como bem longe -, tendo a certeza que a pessoa a quem muitos deles são dirigidos não se dá sequer ao trabalho de vir visitar o meu cantinho. Onde, se tivesse prestado atenção aos pormenores enquanto a nossa talvez relação ainda não se tinha afogado no imenso oceano de dúvidas, podia saber exatamente como me sinto em relação a ele. Em relação ao que agora não existe.
Porque é que esperamos sempre tanto das pessoas? Não compreendo. Sinto que estou sempre a batalhar no mesmo assunto, e isso deve-se às constantes desilusões que me dão. Tu foste uma delas. E a cada dia que passa, vou sentindo que não vale mesmo a pena continuar a permitir que a tua imagem me assombre a mente... Preciso de te deixar ir. Para ser sincera, isso já me pareceu bem mais difícil: na realidade, acho que é sempre assim; quando ainda sentimos o nosso órgãozinho propulsor capaz de nos sair do peito, e ele próprio chegar à beira do maldito e dar-lhe um valente pontapé, tudo nos parece impossível. 
Grades invisíveis estendem-se à nossa volta e impedem-nos de fugir do sentimento, perfuram-nos, deitam-nos abaixo, riem-se de nós. Não dá para explicar quando tudo o que vivemos tem uma maior importância do que isso. É verdade que, em tempos, não me saía da cabeça. Mas agora, o meu cérebro deve ser ocupado por outros assuntos. De quando a quando, cai-me tudo... Ponho-me a magicar sobre o que não devo, e de repente sinto um turbilhão imenso de sentimentos contraditórios - entre eles saudade, desprezo, desilusão e uma leve paixão - que me faz querer deitá-los cá para fora sem sequer olhar para trás. Mas como se trata de algo que não é possível, fica cá dentro, no meu ente, onde os locais ocupados com cicatrizes são mais extensos do que os sãos. Imaginemos uma bola de neve... É tal e qual. Vou acumulando tudo e, ao longo da descida pela montanha, a bola vai aumentando... Até que não há mais montanha. No meu caso, até que não há mais força.
Sem eu dar conta, todos aqueles sentimentos que me iam martirizando aos poucos estão-me a escorrer pelos olhos, pelos poros, pelo coração; tudo o que eu sou grita de agonia, e a coragem que antes eu tentava mostrar perante os que estão de fora fugiu sem deixar rasto. E o que eu devia fazer deveria ser, igualmente, fugir. Mas não é daqui. É do que ainda sinto.

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

doença do pensamento


Ninguém dorme em silêncio. A noite não deixa... Quando achamos que, depois de um dia stressante e que nos deixou de rastos, vamos finalmente descansar, enganamo-nos redondamente. Deitamo-nos, fechamos os olhos, e é aí que o mundo inteiro nos decide berrar aos ouvidos. É aí que todos os pensamentos dos quais nos livrámos durante todo o dia voltam a irromper pelos nossos ouvidos e a mostrar-nos a realidade da qual nos abstraímos por umas horas. Por isso, para quê dizer que dormimos em silêncio? Podemos afirmar que dormimos com a porta fechada, ou com uma luz de presença, ou até de janela aberta mas nunca, nunca em silêncio. É mentira, a mais pura de todas elas. Todos nós somos embalados ao som dos nossos receios, medos, desejos, e esperanças. Ninguém consegue fechar os olhos em paz, porque não fomos talhados para tal. Por mais que tentemos, nem o maior e mais forte comprimido do mundo é capaz de curar a doença do pensamento. Ele pode ser mais leve, pode sussurrar, ou pode até ser uma repetição mental de bons momentos pelos quais passámos. Só que nunca é silencioso - está sempre lá, na esquina, à espera do nosso "momento de reflexão". E quase sem darmos por isso, somos agarrados à porta do Além, raptados pela nossa própria mente e só conseguimos ser salvos pelo João Pestana. Isto é, se lhe apetecer salvar-nos.
Ninguém consegue dormir em silêncio.

terça-feira, 11 de setembro de 2012

venda no coração

É triste quando alguém nos desilude, mas é ainda mais triste quando a história que pensávamos estar a viver aconteceu só na nossa cabeça. O nosso coração lançou um sopro até à nossa mente e fez com que grandes expetativas se elevassem nos Céus que se espelham nos nossos olhos. E esse, foi o fim. Foi aí que o sossego acabou, que as noites em que íamos para a cama sem ter nada em mente terminaram, e em que a cada passo que dávamos, cada conversa que tínhamos passou a fazer relembrar-nos alguém. Novamente. Passamos por este processo vezes e vezes sem conta durante a nossa vida, mas quando em vez de ser um ciclo em que estamos felizes, é um ciclo que nos leva à tristeza, algo está mal. As cicatrizes começam a acumular-se debaixo das nossas vistas, e depois não nos conseguimos aperceber de que algo está errado: de que devemos deixar de desenhar o nosso mundo em volta desse alguém, e que devemos largá-lo. Mas nós estamos cegos, e não vemos que isso nos está a fazer mal. A corda bamba não é casa de férias reconfortante para nenhum de nós, e quando ela passa a ser a nossa morada permanente devemos fugir o mais depressa que podemos. Só que, o que é que acontece? Pois. É isso mesmo. Estamos presos ali, agarrados ao que nunca existiu e com palas nos olhos que não nos deixam enxergar a realidade. E permanecemos ali, à espera do que talvez nunca vá acontecer. Apodrecemos em cima das nossas malditas esperanças e vamo-nos afundando no nosso próprio mar de sofrimento. E não há quem seja capaz de nos salvar.

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

dar tempo ao tempo


Todas as noites ia-se repetindo. Ela bebia um chá enquanto via uma comédia romântica no sofá, de pernas à chinês, e com o aquecedor ligado mesmo do seu lado. Não chovia, mas ouvia-se o vento forte lá fora, o que fazia ainda mais frio. Quando o filme chegava ao fim, sentia-se preenchida e não pensava em mais nada a não ser no final feliz a que acabara de assistir; calçava os chinelos, pousava a chávena vazia em cima do balcão e encaminhava-se para o quarto. Tirava o robe, eriçando todos os pêlos dos braços e das pernas e saltava para dentro da cama muito rapidamente. Quando desligava a luz, o botão de iniciar do mundo real voltava a funcionar, e o clima aconchegante no qual tinha estado antes dissipava-se num abrir e fechar de olhos. Ao pousar a cabeça na almofada, as últimas semanas repetiam-se-lhe na mente, como aquela única música que metemos a reproduzir vezes e vezes sem conta - aquela que nos faz chorar, morrer por dentro... Mas que significa muito para nós, e é como relembrar algo que nos marcou. Por muito que nos faça sofrer, temos sempre tendência para a querer ouvir porque, numa certa altura, ela fez-nos feliz. E era isso o que acontecia com ela. Até adormecer, pensava na sua vida há cerca de um mês atrás: mal parava em casa, tinha sempre algo que fazer, algo para ver, algo para sentir. Tinha sempre uma pessoa que insistia em dar-lhe a mão enquanto andavam na rua, mesmo sabendo que ela não era muito de demonstrar sentimentos: um alguém que lhe ligava todas as noites para dizer que amava, um homem que lhe deu tudo o que ela sempre sonhou e que, de rompante, lhe escapou entre os dedos. Isto, por ela ser como era. Nunca lhe dizia que o amava, embora o amasse.
Por fim, quando conseguia mergulhar num sono profundo, os seus próprios sonhos teimavam em afundá-la. Todos tinham o mesmo tema: ele. E por mais que nos doa, por vezes, todo o nosso corpo, não havia pior dor do que aquela que ela sentia todas as vezes que fechava os olhos; doía-lhe a alma. Como descrever essa dor? É invisível a olho nu, mas das mais violentas que existem. É praticamente o mesmo que transformarem o nosso próprio ser num vidro e lhe darem um tiro, esperando que nós consigamos juntar todos os pequenos pedaços de vidro estilhaçado como se fosse um simples puzzle. É um sofrimento silencioso exteriormente mas, dentro do nosso corpo, todas as células berram de forma louca. Não há quem aguente, e não há outra forma de controlar este sentimento se não dar tempo. E agora perguntam-se: como é que alguém precisa de tempo para se curar, quando se sente alérgica ao passar do tempo? 
Tudo o que ela tinha naquele momento era um turbilhão de pensamentos que teimavam a deixar-lhe feridas no peito a todas as horas em que ela tentava fugir deles. Quando perdemos alguém que amamos por sermos quem somos, não há pior do que sentir o peso da culpa nos nossos ombros. E não há nada - nada - que possamos fazer para evitar isso. Ficamos deitados durante meses sob as nossas almofadas, esperando a tempestade passar e a maré descer para conseguirmos sair lá fora sem ter os olhos borratados e com um sorriso rasgado no rosto. Não há outro antídoto a não ser esperar. E morrer um pouco a cada segundo que passa.

terça-feira, 14 de agosto de 2012

mendigo emocional


Quem a observa todos os dias a sair de casa, de auscultadores nos ouvidos, mala no ombro e sorriso rasgado nunca imagina o que se passa dentro da sua alma. Exteriormente, parece que quase nada lhe acontece: que não há maneira de a fazer cair no chão. Quase nada. Se nos aproximarmos como quem não quer a coisa, com pezinhos de lã, vemos que isso não é real. Os olhos estão inchados, o cabelo despenteado, o rímel borratado, e os suspiros são o que mais se ouve sair dos seus lábios. A música que lhe passa nos ouvidos não é de felicidade; muito pelo contrário - traduz o seu estado de espírito.
Por muito forte que pareça, não é nada mais que uma adolescente. Apesar de não estar só, sente-se só. Mesmo tendo motivos para sorrir com vontade, não tem paciência para o fazer a toda a hora. Só lhe apetece trancar-se no quarto, fechar as janelas, e dormir sempre. Não há mais nada que a cative a não ser refugiar-se em mundos que não são o seu... Espera a toda a hora algo que nunca vai chegar. O coração transborda de esperanças e dúvidas ao mesmo tempo.
O que é que uma pessoa deve fazer quando é deixada na corda bamba? Não há um fio condutor de pensamentos certo que possa seguir. Só lhe resta esperar. E não é esse um verbo que deve ser praticado continuadamente e que, por mais que nos custe, cabe a toda a gente? Umas vezes, o nosso pequeno órgão propulsor não aguenta, outras vezes fica mais fraco... Mas nunca, em circunstância alguma, sai ileso. É como se lhe fôssemos acrescentando cicatrizes aos poucos e poucos. E elas não o marcam só a ele: consequentemente, nós próprios mudamos. E ao longo dos anos, ela mudou, e muito. Mas houve apenas uma coisa que ela nunca conseguiu aprender realmente: a lutar contra os sentimentos, a defender-se dos seus ataques e a calcá-los para bem fundo. E quem não é dotado dessa capacidade, será um mendigo emocional para sempre... Até encontrar quem lhe dê não uma esmola, mas a mão.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Acho que o barco afundou. Outra vez. E fui eu quem, novamente, lançou a âncora e furou a proa com as próprias mãos.
(talvez não seja nada, ou talvez não seja realmente nada)

sábado, 23 de junho de 2012

move on, little girl



Já é uma rotina. Todos os dias levanto-me tremendamente empolgada, o coração a escorrer esperança e os olhos radiados de sangue pela noite passada; salto da cama e corro até à caixa do correio, descalça, sem agasalhos... só para ver se tinha alguma resposta tua. Mas, como normal, só tenho o jornal dentro da caixa. Pego nele, atiro-o para o meio da estrada e, cabisbaixa, volto para casa... As lágrimas emolduram-me o rosto e tomam o lugar da maquilhagem que devia ter para tapar toda a dor que me destrói nos últimos anos.
É estranho continuar a sentir a presença de uma pessoa na nossa vida, quando já não a vemos há anos. Ainda há uma chama pequenina dentro de mim e, por mais que eu sopre, ela não se apaga: parece que alguém está sempre a meter azeite para a alimentar, não me permitindo seguir em frente. 
Todos os meses lhe escrevo uma carta... Todas no mesmo dia, à mesma hora e no mesmo sítio - no dia em que se foi embora, à hora em que me apercebi que tinha sido para sempre e no sítio para onde íamos todos os domingos à tarde. Não há ninguém que consiga fazer sarar as cicatrizes que ele me deixou... No fundo, acho que passámos demasiado tempo juntos. Partilhámos demasiadas coisas um com outro... Na verdade, éramos mais irmãos do que amantes. Éramos. Agora já não sei nada! Tem meses em que só escrevo a carta e não a envio logo... Mas dias depois sinto uma enorme saudade e tenho tendência para começar a lamentar-me por não o ter feito, acabando por enviá-la. São praticamente todas a dizer o mesmo; o típico de nós, mulheres. Cartas perfumadas, com um envelope feito à mão muito delicadamente, cheio de palavras carinhosas e saudosas, com um pedido de retorno no final. Eu nunca tive a sorte de ter resposta... E todas as noites, quando me ponho a pensar no que passei e no que ainda passo, martirizo-me por continuar a estar tão ligada a ele quando - quase aposto -, ele nem se lembra da minha existência. Oh. Foram tantas as noites que desperdicei a pensar naqueles dias de calor em que estávamos no banco da varanda a apreciar o pôr-do-sol. Tudo parecia vindo de um livro. 
Mas naquele dia, todo esse conto de fadas passou a inferno. O castelo que eu comecei a construir à minha volta, para me preparar quando tivesse a certeza de que não valia a pena ter a mínima esperança, serviu de pouco. Foi uma leve brisa, e ele desmoronou-se por completo... 
Fui à caixa do correio e tinha um aviso para me dirigir ao centro de correios mais próximo, pois tinha lá uma encomenda. Claro que naquele momento tudo me passou pela cabeça: seria uma caixa de bombons com um pedido de desculpas? Seria ele dentro de uma caixa enorme? Seria uma carta tão extensa que nem era considerada carta? Nada disso seria suficiente, mas alguma coisa, por mais mínima que fosse, bastava-me.
Não me passou pela cabeça ser o que era: cheguei lá e o que me deram foi um enorme caixote. Não o abri logo... Vim a guiar até casa muito devagar, não a tentar não ter um acidente, mas sim a tentar não vomitar com o turbilhão de emoções que sentia. O que seria?!
Entrei dentro de casa e pousei o caixote em cima do sofá. Tremia dos pés à cabeça. A minha curiosidade era enorme, mas o medo recalcava-a por completo. Sentei-me ao lado dela, mas não aguentei mais. Abri-a.
(Silêncio)
Não podia acreditar. Eram as cartas. Todas as cartas que eu fui enviando ao longo deste tempo todo... Todas fechadas, intocadas... Estava incrédula. Ele tinha desaparecido. E não havia nada a fazer. 
(Silêncio)
 E enquanto se ouvia o crepitar da lareira alimentada pelas cartas, as lágrimas foram enchendo a casa; durante dias. Não havia consolo suficiente que pudesse acalmar a flecha que se tinha espetado no peito. E enquanto todas aquelas palavras, todas aquelas declarações eram queimadas, também o sentimento que as fez nascer o era.

domingo, 27 de maio de 2012

uma pequena ajuda

Podem entrar neste link, ver o meu vídeo e votar nele? é muito importante para mim ir a este festival neste dia porque uma das minhas bandas favoritas vai atuar. :') obrigada* (pede também aos teus amigos, se puderes!) https://apps.facebook.com/passatempos_optimus/

sexta-feira, 11 de maio de 2012

missing

Taparam-me a boca. Ataram-me a uma cadeira. Puseram-me uma venda nos olhos e fecharam a porta atrás de mim.
Queriam-me proibir de sentir, mas eu não os deixei levar a melhor. Porquê tentar destruir o que nos alenta todos os dias da nossa vida? Obrigarem-me a deixar de o fazer seria o mesmo que matar-me. Nem mesmo os apáticos, os que passam pela vida sem a viverem, sem deixarem qualquer marca, o fazem. Há sempre uma centelha de sentimento ali, escondida, que passa despercebida a tudo e todos... Mas há, e é isso que importa.
Oh, que tolos! A quem eles foram tentar tirar a capacidade de sorrir e deixar descair os cantos da boca... Não sabem com quem se meteram. Logo a mim, que vivo disto. Sou uma apaixonada desde a minha génese. Desde que me conheço, lembro-me de amar. Amava o possível e o impossível, o visível e o invisível. E pensando bem... agora acho que acontece a mesma coisa. Eu sou exatamente a mesma, não mudei. Continuo a gostar das pessoas, das coisas, dos momentos, das palavras, com a mesma intensidade que antes. Talvez agora seja um carinho mais complexo, que envolve todo o músculo do meu corpo. Mas é como que permanente. Então e como achavam ser possível tirar tudo isto de mim? Não é algo que se tire como uma farpa de um dedo... É bem mais profundo. Teriam de me dissecar por completo, para conseguirem roubar toda a essência que, por acaso, não se vê. Só sei que ela existe, não porque a sinto, mas sim porque ela me faz sentir. Mas mesmo assim, não sei o motivo deles. Porquê eu? Sou uma desastrada neste tipo de coisa, não há nada que se aproveite.
Voltaram. Ouço passos lentos e uma voz melancólica diz-me algo ao ouvido que eu não consigo compreender. Afaga-me o cabelo, e apesar de não ver, sinto-a fitar-me durante longos momentos; mas nem me mexo. Tira-me a venda e aí tudo em mim pára. Absolutamente tudo. Quase podia jurar que já nem o meu coração batia. Tu... Outra vez. Conhecemo-nos em sonhos e agora, pelos vistos, és o meu salvador. Eu queria falar, queria agradecer... Mas antes de tal ser possível libertaste-me e correste porta fora. E quando tentei ir atrás de ti, já não havia sequer um último rasto teu. Era como se nunca tivesses lá estado. 
Voltei para casa com vontade de ir dormir para te poder reencontrar e perguntar porque fugiste. Graças a ti, fui capaz de sentir algo que já há muito não me batia à porta: saudade.

terça-feira, 1 de maio de 2012

making no sense

Fui-me perdendo aos poucos. Neste momento, nem sequer sei por onde andei. Antes de entrar para a casa de chocolate, esqueci-me de deixar migalhas para conseguir regressar e, agora, o chocolate derreteu e já nem sequer sei de mim própria. Quando pego no espelho de bolso e o meto em frente ao meu rosto, não me reconheço... Aquela, de olhos vazios e distantes, olheiras carregadas e pele envelhecida, não é a mesma pessoa que eu vi pelo vidro do carro do vizinho quando saí de casa. Quem és tu, estranha? Desaparece de mim e deixa-me ver quem eu realmente sou. 
Talvez tenham sido os lugares por onde passei que me fizeram isto: foram-me tirando pedaços enormes, meteram-nos à boca, e cuspiram-nos. Voltei a colá-los, mas já não valia a pena. A essência, todo o elixir que corria no meu sangue, tinha desaparecido... E não havia forma de o recuperar. Claro que a culpa foi minha, e eu cheguei a este estado por escolha própria; deixei a sede de aventura e a loucura que sentia nos meus músculos se apoderarem de mim e me levarem a fazer-me à vida sem sequer pensar em consequências. Sou jovem, mas ainda assim há que ter cuidado com o coração. Não é que seja possível ele ser aniquilado e, do dia para a noite, me aparecer outro no peito, novo em folha, sem cicatrizes e pronto para todas as emoções como se eu ainda fosse uma criança que nada soubesse da vida.
E o que fazer agora? Não há sequer bancos para descansar! Não posso simplesmente parar e ver as horas passarem sem me fazer à estrada. As circunstâncias empurram-me para a frente, e impedem-me de olhar para trás. Mas eu sei, no mais íntimo de mim, que me esqueci de um bocadinho de mim lá atrás. Um bocadinho do tamanho de um botão. E sem ele, não terei forças para me reconstruir. 
Por favor, tempo, deixa-me lá voltar. Se não for agora, nem vale a pena continuar a seguir o rumo; falta-me a bússola, falta-me um Norte, falta-me vontade, falta-me força, falta-me tudo.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

morar na lua

Há coisas na nossa vida que por muito que nós queiramos ter conhecimento delas, existe algo dentro de nós que nos impede a ir em sua procura. Apela-nos a ficar na ignorância. Como se um objeto muito pequenino mas de grande poder estivesse instalado entre as entranhas, e nos fizesse ter aquela dor de barriga que nós temos quando estamos nervosos, nestes mesmos momentos. Lá no fundo, nós próprios sabemos da possibilidade de nos magoar-mos. Apesar da grande curiosidade, quase assassina, arranjamos uma força não sei de onde, capaz de lutar contra não sei o quê, para colocar uma barreira no nosso caminho e uma cadeira atrás dela, na qual nos devemos sentar e esperar pelo momento certo no qual descobrimos aquilo que tanto anseavamos.
Ao abrirmos os olhos, temos duas hipóteses: ou sentimos uma faca a passar-nos na garganta - o que é o mais provável, visto que se o instinto nos disse para esperarmos, é porque algo de mau se iria passar; ou podemos ter a feliz sorte de nos pegarem ao colo e nos coroarem com flores.
A vida é assim, uma inconstância. Tanto a podemos querer, como podemos tentar fugir dela a sete pés. Depende dos dias, depende dos lugares, depende das ocasiões. Mas de que vale tentarmos fugir às evidências quando elas estão bem à nossa frente, sublinhadas e a negrito? Para quê sonharmos demasiado alto quando na realidade, tempos antes, chorámos desalmadamente antes de ir dormir? Realmente, não vale a pena. Acho que vou alugar um foguetão para ir morar para a Lua porque aqui, no nosso planeta, nada me parece justo.

domingo, 1 de abril de 2012

self-destruction

Acordei com o som da chuva lá fora mas nem me apeteceu abrir os olhos. Sabem aqueles momentos em que sentimos que a nossa cama, naquele dia, é o melhor sítio onde se pode estar e que não devemos sequer sair de lá? Hoje foi esse dia. Estava aconchegada, confortável e segura. Nada de mal me podia acontecer ali. Mas o dia não se fazia sozinho, portanto tive de arranjar forças onde elas não existiam, atirar os cobertores para trás e saltar da cama, a tremer por todo o lado. Em milésimas de segundos vesti-me, tomei o pequeno-almoço e saí de casa. O dia passou como todos os outros passam. Para falar verdade, ando farta desta monotonia. A mesma rotina, as mesmas pessoas, os mesmos temas de conversa, as mesmas atividades... Tudo me sabia ao mesmo, e começava a dar-me enjoos. Todos os dias chegava stressada a casa, e a única coisa que podia fazer para baixar a tensão que me controlava todo o corpo era ir para o chuveiro e pôr a cabeça debaixo de água fria e deixar-me por lá a ficar, a sentir aquele gelo percorrer-me todo o corpo - do cabelo para os ombros, dos ombros para as ancas, das ancas para os joelhos, dos joelhos para os pés... 
Quase ao anoitecer, abri a janela da sala e empurrei o meu sofá para a frente dela, onde me deitei e pus os pés no parapeito. Os meus olhos e alma estava regalados. O pôr do sol, como sempre reconfortante, despedia-se de mim de forma suave e simpática. Se eu não tivesse a certeza que não tinha tocado no whisky que estava em cima da mesa da cozinha à minha espera, diria que estava a delirar, mas eu senti os raios de sol a puxarem-me para ele, a convidarem-se para uma dança só nossa. Espreguicei-me e fechei os olhos, e o primeiro sentimento que me perfurou o coração logo nesse momento, sem eu ter tempo para o evitar, foi saudade. A este seguiu-se um sopro de desespero, uma pitada de dor e um ínfimo risco de desilusão. E aí relembrei tudo. O fato de nos últimos tempos ter tido o cérebro bem ocupado fez-me quase esquecer o caos que estava a minha vida amorosa. E neste momento só meu, a sós comigo própria, levou-me a reviver tudo. Tinham passado semanas, e nada havia acontecido. Nada. Depois do que fiz, nem um passo em frente tinha dado. 
Levantei-me do sofá, fechei a janela com muita força e fui para a cozinha. Peguei num copo e sentei-me à mesa. Arrependi-me da minha escolha nos dois segundos seguintes e decidi-me a ir para o quarto, meter-me debaixo dos cobertores, tapar os ouvidos aos meus próprios pensamentos «Não vales nada», «Não és boa o suficiente», «Achas que alguma vez seria possível isso acontecer?», fechar os olhos firmemente e tentar dormir.

segunda-feira, 19 de março de 2012

killer firework

Senti-me transformada em fogo de artifício. Num de repente, fui lançada para o céu, demasiado depressa. Foi tudo rápido demais, se querem que vos diga. Voei demasiado alto, e lá no cimo, pouco tempo permaneci parada. Foram uns breves momentos e, num de repente ainda mais curto que o inicial, desfiz-me em pedaços e caí no chão de forma abrupta e violenta. Não estavas sequer lá em baixo para me segurar... E todos os pedaços de mim deixaram-se estar bem quietos no chão, à espera de serem calcados, esmagados. À espera de serem tudo e nada e sem terem um pingo de esperança de serem um todo
Muitas vezes na nossa vida temos necessidade de puxar alguém para nós, de os incluir na nossa bolha sentimental, porque essa pessoa, em algum momento, nos fez sentir plenos e completos; e depois não somos capazes de os deixar ir embora. É o caso. Sempre fui o tipo de pessoa que precisa de amar e ser amada, precisa de sentir que é querida e necessária. E quando alguém me tentar largar a mão, eu não o permito. Faço tudo o que for preciso para que essa pessoa não me deixe. Quando gosto a sério, gosto em demasia, e por vezes é algo amargo na boca, o que me mata. Principalmente quando não há reciprocidade mas sim, ignorância. Talvez eu não seja pessoa de deixar marcas. Se calhar quando me vou embora as pessoas não sentem a minha falta. É, deve ser isso. Como se eu nunca tivesse existido.
Mas isso não impede nada.

domingo, 11 de março de 2012

insanity

Mergulhei no precipício para que me pudesses salvar. Tinha de arranjar forma de chamar a tua atenção, de dizer silenciosamente estou aqui!, e só assim o consegui. 
Quando estava em cima do prédio e a olhar lá para baixo, a ver os carros a passar, comecei a  ter noção de que ninguém estaria à espera de ver uma andorinha se espetar no meio do seu caminho àquela hora da noite. É tempo de toda a gente estar aconchegada no seu berço, é tempo de os amantes se encontrarem, é tempo de sonhar, é tempo de dar amor. Mas para mim, é tempo de te querer. Como quero a todas as horas que passam... Claro que sentia o estômago aos saltos e tinha medo. Mas eu confiava no teu instinto, e saberia que sentirias quando eu deixasse a insanidade colocar-me um pé à frente. Fechei os olhos e deixei-me levar. Não foi como costumam dizer, a vida não me passou pelos olhos, muito pelo contrário! Não consegui pensar em nada. Era como se tivesse carregado num botão de pausa no meu cérebro e tudo o que aprendi, tudo o que passei, tudo o que vivi, tinha desaparecido por completo. Sentia a força da gravidade me tentar impedir, mas naquele momento era impossível. Mas eu sentia-me bem... Talvez se não conseguisses chegar a tempo, alguém sentisse a minha falta. Talvez tu sentisses a minha falta.
Não sei se isto é um adeus porque não tenho a certeza se estou a sonhar. Mas se não estou, peço-te desculpa. Tu é que me levaste a isto. Decidi deixar-te este bilhete para te dizer que te amo. E não vale a pena correres, porque eu sou sincera, se isto é real, eu achei estar a sonhar. E neste momento as minhas asas já podem não ser nada. Desculpa.
As sirenes começaram a tocar muito alto e eu acordei. Olhei pela janela do quarto e vi um carro completamente despedaçado em frente à minha rua. Saí cá fora rapidamente e corri para o local, que já estava apinhado de gente. Uma pessoa tinha-se atirado de um prédio e quando o condutor do carro viu o corpo no meio da estrada descontrolou-se e o pior aconteceu. Fiquei com uma sensação estranha, porque depois de ter aquele sonho parecia conhecer tudo aquilo. Aproximei-me mais e perguntei a um polícia quem era a pessoa que se tinha assassinado. E ele disse-me. Literalmente. Disse-me. Da boca dele saiu o meu nome, primeiro e último, sem tirar nem pôr. Desviei o meu olhar para o corpo sem vida estendido no meio da rua e fitei a pessoa que estava ajoelhada ao seu lado. Ao meu lado... E desejei nunca ter tido a capacidade de sonhar. Eras tu, e era eu. Éramos nós. E eu fui embora, sem dar por isso.

terça-feira, 6 de março de 2012

walking with spiders

Fui feliz por uns segundos, mas distraí-me. Deixei-me levar na corrente e deixei os troncos passarem com ela, sem me agarrar a nenhum para me salvar; e de repente chegou a cascata e caí numa racha no meio da terra. E não havia nenhum trampolim lá em baixo para me fazer voltar para cima.
Agora, vivo estas horas incessantes de tristeza profunda, e não consigo fazer o relógio parar. As pilhas não acabam, e eu continuo aqui... À espera que as horas passem... Mas elas não passam! E continuo a aprofundar-me na minha própria carne, a embeber-me no meu próprio sangue e nas minhas lágrimas. Afogo-me. E quando fecho bem os olhos já pronta para o meu fado, penso em ti. Penso em ti e em como me fizeste feliz por uns segundos, breves segundos, com meras palavras. E agora não deixo de pensar em ti, nem mesmo quando me deixo ir para o fundo, quando os meus pulmões se enchem de sangue e de lágrimas, e eu vou deixando de sentir, segundo a segundo.
E este tempo passa ainda mais depressa do que aquele em que carregaste o meu mundo à costas: fico feliz a imaginar-te ali, com um sorriso de orelha a orelha. E de repente essa tua imagem que se formou no meu cérebro estica-me a mão. Agarro-a com força, e quando dou por mim estou em terra firme, e tu não estás ali outra vez. Foste-te embora, mais uma vez. 
Os meus olhos estão ensanguentados e enchem-se de lágrimas. Mas desta vez, eu não me afogo nelas... Deixo-as escorrerem pelo pescoço abaixo, sem lhes interromper o caminho, até chegarem ao peito. E dói. Todo aquele sangue que derramei tinha-se concentrado ali, no lado esquerdo do peito. E de cada vez que me pergunto porquê, mais ele me tira as forças e me corrói as entranhas. Mais valia ter ficado naquele mar de vida, e ter deixado todo o meu eu ficar lá a baloiçar, até que se desfizesse e eu já não fosse nada... Outra vez.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

alimentas-me a alma

Respiro profundamente... Engulo um gole de oxigénio como se fosse o último e fecho os olhos, sentido o sangue passar a mil à hora no meu coração. Está tudo bem, está tudo bem. Nada se perdeu naquela penumbra assombrada destes dias que se passaram. Tenho de ter coragem para continuar a caminhar e não deixar que as lágrimas que me passam agora pelo pescoço me tirem as forças!
Abro os olhos. Toda a gente está a sorrir para mim e a dar-me a mão, a empurrarem-me e ao mesmo tempo a puxarem-me para a frente. Dou-lhes a minha mão de forma reticente e sou como que chutada repentinamente - nem tive tempo para piscar os olhos! - para um lugar desconhecido, mas que me deixava feliz, transmitia-me boas vibrações e fazia-me relembrar bons momentos. Mas não entendia porquê. Passei as mãos pelo corpo, a certificar-me de que aquela viagem não me tinha roubado nenhum bocado e olhei o horizonte. Aquele sítio não tinha fim! E eu não sei como descrevê-lo. Era como um espaço íntimo, que sentimos ser só nosso, quando na verdade nunca lá estivemos. Talvez esteja a ter um déjà vu...
Deixo-me cair e fecho novamente os olhos... E sinto um cheiro que faz arrepiar cada pelo do meu corpo, dos pés à cabeça. Reconheço-o. De cada vez que o sinto, sinto a cabeça a andar à roda. É teu... 
Sei que devia levantar-me e certificar-me que não estou a endoidecer, mas talvez seja melhor viver assim este momento, na ilusão de que estás ali. Às vezes sabe bem sonhar, alimenta-nos a alma.
- Levanta-te! - ouço a tua voz e sinto-te a pegar-me na mão. Recuso-me a abrir os olhos e repito de mim para comigo que estou a sonhar. Mas continuo a ouvir-te vezes sem conta... Quando finalmente abro os olhos para o mundo em meu redor, para a vida em geral, reparo que afinal estou no meu quarto, em cima da minha cama, e a meio da noite. Oh, sonhar...

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

nothing in OUR way

Estou pronta e não tenho medos ou dúvidas. Há muito que andava à deriva, e finalmente encontrei-te. Finalmente... Arrependo-me de não te ter encontrado mais cedo, mas fico tão contente por estares aqui. Estou a postos para seguir um novo rumo assim que me deres sinal. Já fiz a minha mala - enchi-a de sentimentos, e para conseguir apertar o fecho tive de usar todas as minhas forças.
Dá-me a mão! Puxa-me para ti. Estou aqui, estou aqui... À espera. Falta pouco? Dá-me a mão. Chega-te ao pé de mim, quero contar-te um segredo ao ouvido: és mais do que aquilo que pensas ser para mim. Dá-me uma chance de ser tudo para ti
Não tenho medo de passar por lugares obscuros no novo caminho que - espero - iremos percorrer; se estou contigo, o que há a temer? Estás ali, e eu confio em ti.
Então vem, pega em mim, e leva-me para longe. Para bem longe. Sê o meu abrigo, eu serei o teu. Sempre. Gosto muito de ti.
there's nothing in our way

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

lullaby

Fico a pensar... Que será isto? 
Enquanto as tuas mãos vão dançando com as teclas em movimentos bruscos, automáticos mas também sentidos, eu sou engolida por uma neblina espessa que me deixa ver mal pelo caminho que vou percorrendo. Como se fosse um feitiço qualquer: num instante, a música é alegre e dá-me vontade de saltar e rodopiar, adornando o meu rosto com um sorriso e fazendo-me querer rebolar em relva fresca qual criança no seu estado mais puro; mas depois a música torna-se mais lenta, mais melancólica... Empurra-me para um fundo sem nome, fecha-me dentro de um cofre debaixo do tapete da sala, o qual é aberto uma vez de século a século, e onde me sinto triste, sem forças, onde murcho, qual tulipa esquecida no meio do chão, cujo único destino é desaparecer. Durante bastante tempo, a melodia é contínua e enche-me a alma. Mas quando faz pausas percorre-me todo o ente com vírgulas e reticências
Sou uma pessoa feita para andar à deriva, mas de vez em quando gosto de ser salva por uma âncora que me leve para bem longe do que sou quando me sinto só. E prefiro que me puxem vagarosamente, do que me puxem e se lembrem de a meio cortarem a corda, para mais tarde me atirarem com outra. 
Gosto de mim quando estou contigo. Por isso, faz-me um favor... Volta a sentar-te no banco, e toca uma canção de embalar. Estou cansada; mas fica aqui comigo, não vás embora. Prometo que nunca me irei embora também.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

the end

Sabia que estava quase a perder-te. Sentia parte de mim a ir embora contigo, e todo o meu ente começava a ser preenchido por um vazio descomunal. Eu própria estava a ser levada na tua corrente de luz...
Apertei-te as mãos mais fortemente ainda a tempo de tu pestanejares várias vezes e, com dificuldade, abrir um pouco os olhos e sorrires. Não me deixaste, disseste, numa voz rouca que mal se ouvia. E nunca irei deixar, afirmei com firmeza. Voltaste a fechar os olhos e foi aí que a tua aceleração cardíaca começou a diminuir lentamente. O barulho de todas aquelas máquinas deixava-me em baixo, pois fazia-me relembrar vezes sem conta do sítio onde estava. E ver-te ali, tão pálido, com os olhos tão encovados que parecias já ter ido embora há semanas, deixava-me também doente. 
Tudo começou há meio ano atrás. Aliás, tudo acabou aí: a nossa felicidade e a nossa vida. Quando te foi diagnosticado, a tua sentença já estava lida. E a partir desse dia todas as tuas forças foram descendo de nível até se esgotarem por completo. Hoje foi o dia escolhido para ganhares asas e voares para além das nuvens.
Amo-te, digo-te baixinho. Não espero resposta, e também não me importo. Enquanto suspiro, já as lágrimas me escorrem pela cara abaixo até caírem na tua mão. Não chores, sussurraste, eu vou estar sempre contigo. E nesse momento os sons de todas as máquinas tornaram-se num uníssono estridente o qual me espetou uma faca profundamente no corpo. 
Levantei-me, dei-te um beijo na testa fria e olhei para ti; deitado numa cama branca sob lençóis brancos. Nunca imaginei que o teu fim fosse assim... Merecias melhor. 
Saí do quarto, do hospital e da cidade. Tentei esquecer tudo, mas aqui estou eu. Dez anos depois a relembrar-te e a relembrar os dias em que ainda tínhamos o mundo todo por explorar. E não houve um único dia em que a minha mente estivesse longe de ti. A tua promessa foi cumprida: sinto sempre a tua mão no meu ombro, e agradeço-te por isso.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

regresso

Estava a chover torrencialmente quando eu entrei em minha casa e os meus olhos combinavam com o tempo lá fora. Esqueci-me de trancar a porta e deixei-a fechar levemente atrás de mim, tirei a gabardina encharcada do meu corpo e atirei-a para o chão ferozmente. Descalcei os sapatos atirando-os um para cada ponta da sala e fui até à cozinha beber um copo de água. Além de o Céu combinar também com o meu estado de espírito, tudo em mim transpirava trovoada e relâmpagos. Éramos assim, eu e o mau tempo, amigos de longa data.
Depois de ter fechado a porta do meu apartamento, tinha deixado uma etapa da minha vida lá fora, completamente enterrada no meio da lama. Despi a roupa, a qual deixei no meio do chão da cozinha e fui até ao quarto. Abri as janelas para ouvir bem a chuva, mas fechei as cortinas. Recostei-me na cabeça da cama, juntei os joelhos ao peito e fechei os olhos: nesse momento, a pressão da fonte que surgia deles, aumentou. Todas as minhas muralhas tinham desabado, e agora até uma fisga era capaz de fazer abanar o meu castelo de palha. Eu própria estava presa por um fio... Qualquer abanão, ao de leve, era capaz de me pôr abaixo
As gotas a cair no chão acalmavam-me. Faziam-me recordar que, tal como muitas daquelas gotas encontraram novamente o caminho para casa - visto que eu morava perto do rio - também eu havia de encontrar o meu. Por mais tempo que demorasse, eu iria conseguir. 
Quando começou a escurecer, ainda eu permanecia naquela posição de estatueta, sem mexer um músculo visivelmente. O único músculo que realmente mexia em mim, sem parar, constante e loucamente, era o que trabalha do lado esquerdo do peito. Incansável. Aguenta a minha carcaça dias e dias sem uma única reclamação.
A chuva acalmara, mas o meu batimento cardíaco não lhe acompanhou o ritmo. Desta vez, o meu coração parecia querer sair-me disparado pela boca, sem me dar tempo para um último fôlego. Foi aí que o vento começou a soprar e as cortinas a voarem que nem umas loucas. Levantei-me e fechei a janela, e nesse momento a campainha tocou. À pressa, meti os cobertores em volta do meu corpo e corri até à porta da entrada; quando espreitei e vi quem era todas as paredes que restavam do meu forte caíram, fazendo um enorme estrondo. O meu coração disparou, e eu senti o sangue quase a fugir-me das veias. Abri a porta de rompante e nem tive tempo para olhar para ti. Abraçaste-me fortemente e nesse momento tudo em mim acalmou. As lágrimas cessaram e a nostalgia apoderou-se de todo o meu corpo. E enquanto eu dava graças por estares ali comigo e inspirava o teu perfume vezes sem conta para nunca o conseguir tirar das minhas entranhas, tu repetias vezes sem conta Não me vou embora.

sábado, 7 de janeiro de 2012

dream vs nightmare

Estava mesmo quase a agarrá-lo, a tocar-lhe; e já há tanto tempo que não o fazia... quando acordei. Por milésimas de segundo, o impossível praticamente dava uma reviravolta e transformava-se em possível
Naquelas horas em que dormi, até ao momento em que abri os olhos para a realidade, parecia que eu tinha parado o relógio que estava na cabeceira e quase tempo nenhum tinha passado. Era como se o mundo inteiro tivesse ficado especado a olhar para mim ali, no meio de todos os lençóis e cobertores emaranhados no meu corpo, os quais transformei numa selva enquanto quase consegui o que queria. 
É o que se diz, que sonhamos com o que mais queremos. E ali estavas tu, servido de bandeja. E ali estava eu, a tremer, com o estômago às voltas, as lágrimas a abrirem caminho dos olhos até ao pescoço, e a olhar para ti, questionando-me acerca da validade daquele momento. Parecia demasiado fácil. Mas sou dada a loucuras e, vagarosamente, lancei a minha mão ao teu rosto sorridente e melancólico ao mesmo tempo: estavas tão impávido e sereno que nem parecias tu próprio, que sempre foste dotado de um nervoso miudinho. Parecia que te conhecia desde sempre... Todos os teus traços continuavam intactos como da última vez que te vi. Mas antes de conseguir comprovar que não estava insana, o relógio voltou a funcionar.
Como os pensamentos matam mais rapidamente do que os sonhos, decidi recostar novamente a cabeça à almofada, e senti-me a ser tele-transportada. Quando voltei a abrir os olhos, sentia-me aconchegada. Estavas com o braço por cima de mim, e tínhamos cobertores até ao pescoço. Virei-me para ti e dormias tão tranquilamente, como se nunca te tivesses apercebido de que eu tinha tido um pesadelo. E nesse pesadelo, tu não estavas comigo.