quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

dez dias sobre mim (10)

Décimo dia - uma confissão.

Quando leio deixo a imaginação voar. Torno-me a personagem principal e vivo todas as emoções. Revejo-me em cada momento e penso tal e qual como diz no livro. Sigo-lhe as frases sem deixar nenhum pormenor para trás quando estou a transformar o cenário na minha cabeça de acordo com o indicado. Depois, quando mergulho naquele oceano imenso de palavras, pontos de exclamação, interrogação, finais, vírgulas, aspas e outros que tais, esqueço a vida real, esqueço os meus problemas, as minhas convicções, e deixo-me levar. Mergulho de cabeça sem ter medo de me magoar e deixo-me andar à deriva. Devoro cada acontecimento como se a fome, naqueles momentos prolongados, me fizesse um nó insuportável na garganta; quando, na realidade, eu apenas tinha fome de aventura, fome de um pouco da essência da loucura, da falta de lucidez. Simplificando: fome de ficção, no caso de alguns livros.
E, depois, acordo e às vezes preferia trocar a minha vida real por uma vida inteira nos livros. Mas, pergunto-me: Para quê? É a mesma coisa que ouvir os nossos pais dizer que são novelas e basta. Basta trocarmos a palavra novelas por livros e fica o mesmo. Porque é raro acontecer como citam nos livros. Por vezes, é demasiado perfeito. E é por isso que não é real.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

dez dias sobre mim (9)

Nono dia - dois smiles que descrevem a tua vida agora.


:(
:)


um pouco contraditório, não?

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

dez dias sobre mim (8)

Oitavo dia - três coisas que gostarias de esquecer.

fragmentos do meu passado;
22 de Agosto de 2008;
ver os meus entes queridos sem vida... e sentir dois deles frios e duros como gelo junto dos meus lábios.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

dez dias sobre mim (7)

Sétimo dia - quatro coisas que tu nunca esqueceste.


tu;
onde é verdadeiramente a minha casa;
do que tenho em mente;
de ver o meu avô a tocar acordeão quando eu ainda era uma pequena criança.

domingo, 26 de dezembro de 2010

dez dias sobre mim (6)

Sexto dia - cinco pessoas importantes para ti.







E o quinto lugar é ocupado pelo resto dos meus amigos e pela minha família.
São todos importantes!
(algumas fotos estão um pouco desactualizadas)





sábado, 25 de dezembro de 2010

dez dias sobre mim (5)

Quinto dia - seis coisas que tu gostarias muito de fazer e ainda não fizeste.

Dizer amo-te em voz alta à pessoa mais importante da minha vida;
Continuar a escrever o meu livro;
Dormir um dia inteiro;
Moon walk;
Atirar o meu telemóvel contra a parede e ele partir-se todo;
Decorar a letra toda das músicas que gosto.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

dez dias sobre mim (4)

Quarto dia - sete coisas que cruzam muito a tua mente.

Quero-me ir embora.
Porque não me amas também?
A vida é tão injusta...
Ai se eu pudesse...
Não consigo deixar de gostar de ti, estás sempre presente a meu lado.
Se agora sou azarada, então talvez no futuro não o seja!
A sétima coisa não pode ser completamente escrita, pois são pequenos excertos de músicas que vêm ter comigo ao acaso; às vezes nem dou por isso.

apesar de não gostar muito deste, UM FELIZ NATAL A TODOS!

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

dez dias sobre mim (3)

Terceiro dia - oito maneiras de ganhar o meu coração.

Ter interesse pela minha vida e por quem faz parte desta;
Distinguir-se no meio da multidão;
Ter um coração mais doce do que mel;
Perceber-me;
Dar-me mimos todos os dias, a todas as horas, todos os minutos e segundos;
Fazer-me acordar todas as manhãs com uma frase bonita na caixa de entrada;
Ser romântico;
Estar sempre pronto a ouvir-me.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

dez dias sobre mim (2)

Segundo dia - nove coisas sobre mim.

Falar de mim não é fácil, digo-vos. É fácil falar dos outros, dizer como eles são, do que gostam... Mas quando se trata de nós próprios a coisa já é mais complicada.

Gosto muito de ler e devoro livros (ultimamente tenho tido uma certa panca por livros de vampiros e afins);
Desde pequena que tenho um medo horrível de balões. Sim, balões!;
Tenho um desejo secreto de aprender a tocar violino;
Quando estou quase a adormecer imagino situações que gostava que acontecessem na minha vida, e revivo-as vezes e vezes sem conta;

Tenho um azar terrível com telemóveis. O que tenho actualmente já foi cerca de oito vezes para o arranjo em pouco mais de um ano;

Toda a minha vida se resume a uma única pessoa;

Gosto - tal como toda a gente - que não me ignorem e me dêem toda a atenção do Mundo;

O meu maior vício é mexer no cabelo;

Sou muito dada a sentimentos e ao que provém deles.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

dez dias sobre mim (1)

Primeiro dia - dez coisas diferentes que gostarias de dizer a dez pessoas agora.

Douglas: Tu és o meu melhor amigo, sabes bem disso. Além disso, como me farto de citar vezes e vezes sem conta, és meu irmão, meu companheiro. És a pessoa mais importante da minha vida, também o sabes. Sabes tudo sobre mim. Maior parte - se não forem todas - das minhas palavras são dedicadas a ti, ao teu coração e à relação que mantemos ao longo do tempo. Não tenho vergonha de te demonstrar muitas das coisas que sabes, mas às vezes tenho imenso medo de te perder. Não no tempo, não no destino. Apenas um medo que me faz num nervoso miudinho horrível. Amo-te com tudo o que tenho e não sei viver sem ti. Os tempos pelos quais temos passado têm sido difíceis para ambos, mas acredito vivamente que ainda mais para ti, pois a tua vida deu uma grande reviravolta. Vou estar incondicionalmente sempre disponível para ti: seja para rir ou para chorar. Podes contar com um sorriso meu, um aconchego, tudo o que precisares para te sentires melhor quando o teu Mundo estiver a ruir. Confio-te os meus segredos, os meus medos, as minhas vontades e, principalmente, a minha vida. Obrigada por tudo o que me deste e tens dado, obrigada por me teres ajudado a crescer, por estares sempre presente e por nunca, em situação alguma, me deixares. És o palpitar do meu coração, pequeno príncipe. «Distance means so little when someone means so much»

Joana e Isabel: Meus tesouros preciosos! Vocês - sabem bem disso - são as minhas melhores amigas. Tal como o Douglas, conhecem-me como as palmas das vossas mãos. Reconhecem o significado das minhas facetas, dos meus movimentos... Percebem quando estou mal ou quando estou bem demais. Ajudam-me nos piores tempos e estão sempre lá para mim. Não sei o que seria sem a vossa presença na minha vida. Juntas, de mãos dadas, conhecemos o universo e tudo o que ele nos tem para dar. Somos como três irmãs que nasceram em berços diferentes: completamos frases umas das outras, dizemos as mesmas expressões ao mesmo tempo, temos tiques que se espalharam entre as três. Também tenho de vos agradecer por terem sempre os braços abertos quando tudo o que eu mais quero é desaparecer para sempre. Amo-vos do fundo do meu coração e da minha alma.

Liliana: Minha querida, com certezas sei que não esperavas ver o teu nome aqui. Já nos conhecemos desde quando ainda nem tínhamos os dentes todos na boca, desde quando nos deixavam no jardim de infância e nós nos fartávamos de chorar porque queríamos voltar para casa. Desde aí, nunca mais nos deixamos uma à outra. É verdade que já fomos muito mais chegadas, à poucos anos atrás; mas a vida muda tanto que às vezes leva muito com ela. Não foi por isso que deixamos de ser muito amigas. Também me conheces bem, e eu a ti. Gosto muito de ti, caracolinhos. Obrigada por tudo.

Joana T: Joana Maria, meu anjo (anho). Ainda és tão pequenina (em relação a mim, ahah)! Sempre me deste a mão e me fizeste reconhecer que estavas pronta para me ajudar em qualquer situação. És muito importante para mim, e eu não vejo a hora de voltar a abraçar-te outra vez. Não vejo a hora de termos conversas sobre temas estúpidos e de cantarmos músicas que não passam pela cabeça de ninguém. Sempre que precisares de mim, já sabes de que forma me comunicar, meu amor. Always here.
p.s: só mais um beijo.

Lorena: Meu amorzinho, considero-te minha irmã de sangue. Crescemos juntas, aprendemos muito juntas. Praticamente vivemos juntas. Se não existisses na minha vida, acho que ela deixava de ter um pouco de cor. Fazes-me rir às gargalhadas e fazes-me mesmo muito feliz. Não seria quem sou hoje se quando saí pela primeira vez à luz do Sol não tivesse visto uma loira fantástica do outro lado do muro. Amo-te feiosa.

Avós: Tenho muitas saudades vossas. Gostava tanto que ainda cá estivessem para me verem. Mas sei que as vossas mãos estão nos meus ombros a darem-me forças para enfrentar as tempestades e para me mimarem quando saio vitoriosa destas. Amo-vos.

Alexandra: A ti não preciso de dizer muito, xanux. És uma fedelha irritante, que só serve para se meter comigo. É melhor que um dia destes comeces a parar de falar mal da Lady Gaga, senão vou ter de tomar medidas drásticas. Mas quero que saibas que apesar de andarmos sempre às turras eu gosto muito de ti.

Marlene: Tenho esperanças de que um dia tudo possa voltar a ser como antes, isso é uma das coisas que eu mais quero. Sei que tive atitudes que não foram as mais correctas, mas esperava que te lembrasses que também tivemos momentos dos quais nunca me vou esquecer. Continuas a ser muito, muito importante para mim. Não me esqueço das nossas conversas, de quando estivemos juntas. Não me esqueço de nada disso, weny.

António: Como sei que és visitante frequente no meu blog, deixo-te aqui um pequeno agradecimento em relação às tuas opiniões acerca dos meus posts e a praticamente me obrigares a fazê-los. Sabes, fico contente por ter-te conhecido. Um dia destes ainda te faço deixar de gostar de Queen, prometo. Não me esqueci do par de meias que tenho de te dar como prenda de Natal!

(não irei retomar o desafio das cartas. e sei que fiz este 1º dia para 11 pessoas, mas teve de ser*)

fear


Sim, é disso que se trata.
Tapa-me a boca sem mexer um só músculo, apenas pela sua mera e forte existência em cada milésima de segundo dos nossos dias. Vagueia a meio da noite pelas ruas, sem destino certo, mas de encontro marcado ao nosso lado na cama, enquanto achamos que estamos seguros de tudo e de todas as coisas. Entra de mansinho, pé ante pé - talvez uma pena a cair no chão fizesse mais barulho que ele quando nos invade o corpo sem permissão. Enfia-se no meio dos lençóis e enrola-se em nós, atafega-nos, cala-nos.
No dia seguinte, já nada é igual. A bruma tomou conta do ambiente com o qual lidamos, sentimos arrepios de minuto a minuto e andamos desorientados. Parece que temos uma corda ao pescoço que não nos deixa respirar, parece que temos uma venda nos olhos que não nos deixa perceber o que se passa à nossa volta.
Depois ele vem. O receio vem... E tudo ainda se torna pior. Não temos coragem para avançar, para dizer alguma coisa. Não queremos dar um passo em falso. E se caímos na armadilha?
Somos amarrados a uma cadeira velha sem poder fazer nada, tapam-nos a boca e os olhos, amarram-nos as mãos atrás das costas, e fecham-nos numa sala escura e sem janelas. E por lá ficamos...
Para companhia destes dois, juntam-se-lhe uma consequência. A dúvida atordoa-nos a pouca sanidade que ainda nos resta. Enlouquece-nos. E se eu optar por fazer isto? Mas e se aquilo for o mais correcto para mim?
Sim, é disso que se trata.
Há quem tenha medo da própria sombra. É uma expressão, mas acredito que hajam pessoas assim. Deixam os dias passar à deriva, e não se apercebem em quem se vão tornando. Na vez de terem cuidado com os pormenores das suas medíocres vidas, deixam-se andar por aí. E depois ele toma conta delas, com todos os seus aliados em conjunto.

Não é a força bruta que o derrota. Basta uma certeza de que tudo correrá bem. Uma.

domingo, 19 de dezembro de 2010

um pouco de nós

«Rosie,
Vou regressar amanhã para Boston, mas antes de ir gostaria de te escrever esta carta. Todos os pensamentos e sentimentos que têm estado a borbulhar dentro de mim estão finalmente a transbordar desta caneta e estou a deixar-te esta carta para que não te sintas sob pressão. Compreendo que precisarás de tempo para pensar naquilo que vou agora dizer.
Compreendo o que se está a passar, Rosie. És a minha melhor amiga e consigo ver a tristeza nos teus olhos. Sei que o Greg não está fora durante o fim-de-semana para trabalhar. Nunca conseguiste mentir-me; sempre foste terrível nisso. Os teus olhos traem-te sempre. Não finjas que está tudo perfeito, porque eu vejo que não está. Vejo que o Greg é um homem egoísta que não faz a mínima ideia da sorte que tem, o que me deixa doente.
É o homem mais sortudo do mundo por te ter, Rosie, mas ele não te merece e tu mereces muito melhor.
Mereces alguém que te ame de todo o seu coração, alguém que pense em ti constantemente, alguém que passe todos os minutos de todos os dias simplesmente a pensar no que estarás a fazer, onde estarás, com quem estarás e se estarás bem. Precisas de alguém que te possa ajudar a concretizar os teus sonhos e que te possa proteger dos teus medos. Precisas de alguém que te trate com respeito, que adore tudo em ti, especialmente os teus defeitos. Devias estar com alguém que te possa fazer feliz, verdadeiramente feliz, feliz como se estivesses nas nuvens. Alguém que deveria ter aproveitado a oportunidade de ficar contigo há anos em vez de ter ficado assustado e com demasiado receio de tentar.
Já não estou assustado, Rosie. Não tenho receio de tentar. Sei qual era aquela sensação no teu casamento - era ciúme. O meu coração despedaçou-se quando vi a mulher que amo a virar-me as costas para sair da igreja com outro homem, um homem com quem ela planeou passar o resto da sua vida. Foi como uma sentença de prisão para mim - anos e anos sem que eu pudesse dizer-te o que sentia ou agarrar-te da forma que desejava.
Por duas vezes estivemos lado a lado no altar, Rosie. Duas vezes. E por duas vezes cometemos o mesmo erro. Eu precisava que estivesses ao meu lado no dia do meu casamento, mas fui demasiado estúpido para ver que queria que fosses a razão do meu casamento.
Nunca deveria ter deixado os meus lábios afastarem-se dos teus há tantos anos em Boston. Nunca devia ter-me afastado. Nunca devia ter entrado em pânico. Nunca devia ter desperdiçado estes anos todos sem ti. Dá-me uma oportunidade para te compensar. Eu amo-te, Rosie, e quero estar contigo, com a Katie e com o Josh. Para sempre.
Por favor, pensa nisto. Não desperdices o teu tempo com o Greg. Esta é a nossa oportunidade.
Vamos parar de ter medo e aproveitar. Prometo que te farei feliz.
Com todo o meu amor,
Alex»
Cecelia Ahern, em Para Sempre, Talvez

Esta carta não foi entregue ao seu destinatário. Talvez tudo tivesse mudado se ela chegasse às mãos de quem ama e não o diz. Será que as almas gémeas irão afastar-se sempre como dois lados opostos de um íman? Espero que não, porque isto faz-me lembrar muito. Demasiado, talvez.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

tudo pára

Olho-me ao espelho. Os vestígios do risco esborratado do lápis que tinha posto à dois dias atrás quase me chega aos cantos da boca. As minhas olheiras são maiores do que as de uma pessoa que não dorme à uma semana seguida. Sinto, mais do que vejo, os olhos cansados, extenuados pela tristeza contínua que os tem consumido nos últimos dias. Notam-se os vasos sanguíneos quase a quererem rebentar na parte branca - que está mais do tom avermelhado do que esbranquiçado. A minha pele parece estragada e está seca, muito seca. Estou mais pálida do que o costume, e não o costumo notar. O meu cabelo está despenteado, e consigo ver vários nós a apanhar praticamente todos os fios de cabelo. Nunca me vi numa situação tão... horripilante e desleixada.
É verdade, sim. Passei os últimos dias deitada na cama, enrolada nos lençóis que pareciam que me sugavam todas as energias, abraçada a uma almofada que está agora a secar na varanda. Os meus olhos não pararam de verter água salgada um segundo que fosse. Não dormi, e não pensei a mais nada a não ser ti. Quero-te de volta. Quero-te novamente comigo, e não posso. O pensamento que mais ecoou na minha cabeça e me tampou os ouvidos foi "A vida é tão injusta". A vida é tão injusta para ti, para mim, e para tantas outras pessoas...
A seguir, vou-me levantar desta secretária, voltar a deitar-me sobre os lençóis que nunca soube de que lado estavam, e vou tentar ter uma noite descansada. Vou abstrair de todos os pensamentos que me possam afectar e continuar a viver.
Mas, espera. Tu sabes que do meu coração ninguém te tira, não sabes?
Porque, sabes, eu abstraio de tudo o resto. Mas sinto-te sempre a bater à porta do armário onde te fechei dentro do meu órgão propulsor.

sábado, 11 de dezembro de 2010

just a dream

Ainda ando em busca de pequenas migalhas deixadas por ti na última noite que por cá passaste. Migalhas do meu corpo que deixaste para trás quando o que mais querias era sair de entre os lençóis e esgueirar-te o mais depressa possível da divisão, da casa e, da minha vida.
Quase imagino como foi. Enquanto eu dormia profunda e calmamente - a pensar que a minha vida estava a mudar para melhor - tu acordaste, olhaste-me e pensaste «Porque é que me meti nisto?». Num acto eléctrico mas muito cuidado saltaste da cama, vestiste as calças de ganga coçadas e abotoaste a camisa à pressa, puseste o relógio no pulso esquerdo e, propositadamente, deixaste a pulseira que te ofereci como que esquecida, num Adeus Para Sempre em cima da mesa da cozinha. Calçaste os sapatos, e fechaste a porta atrás de ti. Tudo isto em movimentos inaudíveis. Nesse momento, deixei de sentir o calor que emanavas e acordei.
E agora estou aqui, em busca das tais migalhas que anseio encontrar para poder colá-las de novo em mim. Preciso de me sentir inteira para voltar a sair à rua. Guardei a pulseira bem no fundo do baú e tapei-a da melhor forma que pude. Mentalizei-me de que a escolha correcta era apagar todos os dias em que te conheci da minha mente, do meu coração. Pelos vistos, nem em tantos dias eu percebi quem tu eras realmente. Não me mandaste nenhuma mensagem, não me tentaste ligar, nada. Mas eu não tentei... De que valia? Em vez de editar o teu nome na minha lista de contactos para "Desconhecido", apaguei-o. Apaguei tudo. As tuas e nossas fotografias, as tuas mensagens, as gravações de chamadas. Juntei todas as recordações num monte que vai desde o chão até ao Céu e atirei-as para um buraco negro. Menos a tal pulseira (apenas para um dia ter a certeza de que exististe realmente).
Mas tudo isto teve um propósito: dar-me ainda mais certezas de que a minha vida não tem valor nenhum. O meu corpo não têm essência, a não ser o meu amor idiota por ti. Ele é o meu combustível mais do que caro que me faz acordar todos os dias. E quando eu achei que tudo ia mudar... Os pilares que já estavam a ser construídos desmoronaram-se e, junto deles, o meu coração.
Gostava de ter forças e coragem para poder dar a cara. Será que as caras estranhas que me esperam lá fora perceberão que nos últimos tempos tenho vivido numa mentira? Terei isso estampado em qualquer camisola que vista? Tenho medo. Quero esconder isso no mais profundo do meu íntimo, e não consigo. Quero escondê-lo de forma a que nem eu consiga dar por isso. Não me reconheço. Nunca tive receio de demonstrar os meus sentimentos, muito menos a minha afeição por ti. Enquanto a minha maior vontade é dizer que te odeio, enquanto a minha garganta só quer expelir essa única frase... O meu coração grita de uma forma desumana que te ama como ninguém. E se eu não disser a verdade, ele salta-me do peito e mata-me a alma.
Porque é que quando fechaste aquela porta não levaste tudo contigo? Porque não levaste as memórias e os sentimentos de arrasto? Além de me poupares trabalho, poupavas-me uma vida.

«Recuso o teu amor.
Sinto-me enlouquecido
E precocemente envelhecido.
Desfaço-me em mil pedaços
Por entre o choro de meus passos.
Sinto-me entristecido.
Desmaio ao acordar;
Relembro o teu rosto;
Permaneço a chorar;
Sofro de desgosto.
Recuso o teu amor.
Ignoro o teu desejo.
Rejeito a tua voz
E em mim um teu beijo.
Renego o verbo "amar".
Recuso-me a acreditar...»

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

aqueces-me nos dias de inverno

Neste dias sem cor pelos quais temos passado, a depressão parece ser o sentimento mais óbvio a seguir. Chuva, neve, e frio.
Uma boa combinação seria um sofá confortável, lareira acesa, uma caneca de chá bem quente, um cobertor de lã macio em cima do regaço e uma tarde de filmes de fazerem os olhos arder de tanto chorar. Parece uma coisa que se faz nos filmes, quando as actrizes principais são rejeitadas pelo seu grande e para sempre amor, trocando o chá por uma boa taça de gelado de morango... Mas é algo que faz parte cada vez mais do nosso quotidiano.
Para dizer a verdade, gosto bastante deste tempo. Traz-me uma sensação que não consigo explicar. Tentamo-nos manter quentes de todas as formas possíveis e imagináveis. Vestimos milhões de camisolas, três pares de meias, gorros, cachecóis e outras tantas coisas.
Mas é também nestes dias que a falta de energia se apodera de mim. É nestes dias que me sinto a desfalecer. Parece que quando a chuva me bate à porta, toda a fraqueza me avassala o corpo. Não é por isso que desgosto desta estação do ano. Lembro-me de ti... e de todas as recordações que fazem parte de ti. Relembro a sensação de ter os teus braços enrolados em mim quando não estás comigo, repito as tuas palavras em voz alta para poder senti-las vivamente. Estás distante, mas é quase como se estivesses do meu lado. Talvez.
Ao sair de casa, todos os locais por onde passo fazem-me lembrar-te. Fazem-me lembrar loucuras por que passámos... Momentos inesquecíveis. E é assim que vou sentindo a tua falta. Principalmente nestes dias, em que mais necessito do teu calor corporal e das tuas palavras. Bastava-me apenas um toque da tua mão na minha face e eu deixava que ter pele de galinha. Porque tu... Tu és diferente de todos os outros. Por completo. Mais ninguém é capaz de me fazer sentir como tu fazes. Porque é que vais embora nestes meses tão prolongados?
Quando voltares, vou-te fechar a sete chaves, juro.
Ando sem guarda-chuva, e quando as gotículas me começam a molhar a ponta do nariz eu não me importo. Caminhar à chuva, correr, dançar, saltar... é gratificante. O vento corta-me a respiração e gela-me os lábios. Mas vou continuando a fazer tal e qual como uma criança. Uma criança sem destino, sem horas de chegada, sem rumo, mas que te tem a ti. E neste momento, uma coisa que te queria pedir era que voltasses bem depressa. E vou rodopiando ao mesmo tempo que vou cantarolando o teu nome.
O Inverno podia ser nosso, apenas nosso. Mas simplesmente não é. Simplesmente e infelizmente.

sábado, 4 de dezembro de 2010

close the door

Ela chama por mim em silêncio. Parece que pede por socorro. Em vez de me fazer doer os ouvidos, faz-me doer todos os músculos do corpo... O que se passará se eu a abrir? O que verei do outro lado? Talvez não haja nada, e eu caia num poço sem fundo; talvez esteja lá alguém que me quer dizer alguma coisa. Ou simplesmente, talvez eu abra a porta e, como normal, esteja lá o meu quarto. Mas não, não pode ser. Tudo me indica que não estou numa situação normal. Há lá algo: pode não ser palpável, visível, ou até audível. Mas tem de haver alguma coisa, e o meu intuito diz-me que sim. De repente, vejo-me a meros centímetros dela, a minha mão na chave. Não, não posso entrar sem ter certezas do que está do outro lado! Mas é como se a minha mente estivesse sem pilhas, e a minha mão se movesse à luz solar. Acto contínuo, comecei a ouvir ranger... Ela estava a precisar de ser mudada, já tinha avisado a minha mãe. Como não podia fazer mais nada, engoli todo o medo, fechei os olhos, e deixei acontecer. Muito devagar, senti a porta ser arrastada para trás por mim. O meu pé direito foi o primeiro a avançar, mas continuei com os olhos fechados. Ainda não estava preparada. Silêncio. Suspiros. Suspiros? Abri os olhos rapidamente. Estava tudo normal, tal e qual como havia deixado esta manhã. O medo dissipou-se, mas as interrogações continuaram comigo. Continuei a caminhar em frente até à janela, e atrás de mim a porta fechou-se de rompante. Parecia como daquelas vezes em que quando deixamos a porta aberta e abrimos uma janela: o vento entra pela casa dentro e fecha-a, fazendo imenso barulho, como um trovão. Mas a janela estava fechada. Corri para a porta e tentei abri-la, em vão. Estava trancada, e a chave estava por fora. Virei as costas e deixei-me escorregar, lentamente, pela porta abaixo. O meu olhar foca-se no chão, e, do nada, um papel passa por debaixo dela. Cuidadosamente, pego nele e abro-o.

«Agora, é apenas um pouco de madeira que nos separa. Se me deixares entrar no teu coração, eu deixar-te-ei sair dessa prisão. Juro-te que ela não passa de um casulo que formaste à tua volta. Ele é feito de medo, apenas. Confia em mim, e a porta abrir-se-á.»

Fechei os olhos, encostei o bilhete com remetente anónimo ao peito e adormeci. Sonhei com prados verdes que cheiravam a magnólia. Havia um limoeiro com uma sombra apetitosa, e dirigi-me para lá. Os meus passos não eram simples passos. Eram passadas de gigante que mais pareciam saltos. Sentei-me e parecia que a árvore me abraçava ternamente... Ah?!
Acordei, mas continuei de olhos fechados. Alguém me fazia festas no cabelo muito carinhosamente. Abri os olhos só um bocadinho - tal e qual os gatos quando estão muito sonolentos - e vi.
Do outro lado do quarto, mesmo à minha frente, a porta estava aberta.
Inesperadamente, alguém me beija o pescoço e me diz suavemente que me ama ao ouvido, num sussurro que me faz arrepiar das pontas dos pés à ponta dos cabelos...


terça-feira, 30 de novembro de 2010

identidade

Passo os dias nisto. As teclas começam a ficar gastas. Mas eu continuo a amar este instrumento e a sua melodia com toda a minha alma. Se sinto a tua falta, afogo as mágoas nele. Sento-me no banco que começa a ficar fraco, fecho os olhos, e começo a tocar o que me vier nas veias. Toco com o coração. As horas vão passando, e cada minuto é preciso para eu voltar-me a sentir bem como antes. As lágrimas escorrem-me pelas faces, descem pelo pescoço e acabam-me no peito. Arrepio-me, mas continuo a tocar. Esqueço o que me espera lá fora. Troco todos os meus pensamentos por um Dó ou por um Si.
Podem-me agarrar os ombros e abanar-me todo o corpo, podem gritar nos meus ouvidos... Mas eu não estou neste Mundo. Aliás, há dias em que eu penso que não pertenço aqui. Não sou, definitivamente, normal. Sou de poucas palavras, ando sempre cabisbaixa, e a única coisa que me faz sentir eu própria é tocar piano. Abre-me as asas, dá-me um empurrão e eu voo ao sabor do vento e do cheirinho a Outono. É mais do que um passatempo: é uma vida.
Tirem-me as mãos, mas matem-me logo de seguida. Quem seria eu sem isto? Já
não sou ninguém, mas seria de um nível ainda mais abaixo.

Sinto o cabelo à frente dos olhos, mas não vou parar para o tirar. Não me incomoda.
Gosto de sentir a intensidade do som que as minhas mãos produzem, e, sendo possível de imaginar, vou-me movimentando ao ritmo da música. Não, não sou filha de Beethoven... Mas sou filha de Deus. Isso não conta?

Não tenho dificuldade em encontrar a tecla certa, e não costumo errar nas notas. As pautas já saíram da minha frente faz alguns anos; faço a minha própria música, e as pautas estão no meu coração... são a minha identidade.
Quando a inspiração acaba e a dor desvanece, abro os olhos e sinto-me como nova. É como se tivesse recomeçado a minha vida. Agora, um trovão podia-me atingir, podia ser atropelada. Até tu, podias-me deixar sozinha. Eu iria em paz, completa. Porque nós nunca perdemos a nossa identidade, ela vai connosco para lá, para bem longe, e nunca poderá ser apagada.
Mas como te incluo nas minhas pautas, tu irás comigo também.


«(...)
Quando perco a melodia
Do sol, do meio-dia
No meio do mundo sozinho
O piano toca almas
Em notas ébrias e calmas
Solfejo tonto de vinho.
A vida é um compasso
Feito a passo e arrasto
Lápides tantas após ano…
Onde me esqueço de mim
E só me lembro por fim…
Quando alma chora em piano.»

domingo, 28 de novembro de 2010

barreira

Estavas do outro lado da passadeira. Os semáforos devem ter ficado verdes para os peões imensas vezes. Mas eu não conseguia tirar os meus pés de onde estavam, parecia que a gravidade me tinha colado ao chão. Não pestanejei durante todo o tempo em que estive ali, que me pareceu uma vida inteira: e, verdade seja dita, podia ser toda resumida em quem estava do lado oposto da rua. Não sentia os meus olhos cansados por estarem abertos à tanto tempo seguido - eles tinham ganho vontade própria; parecia ser a primeira vez que o via, sei lá... era tão diferente. Tudo em mim estava em completo estado de transe. Tinha a sensação de que se ouviam as batidas do meu coração a quilómetros de distância, e tudo o resto era um silêncio profundo e confortável. O meu olhar concentrado era correspondido, e por longos momentos parecia que os carros que passavam no nosso meio eram miragens, ou então pequenos remoinhos loucos. Tive medo de estar a sonhar. Isto era algo que eu nunca tinha sentido, algo que eu nunca havia provado.
Era estranho, principalmente.

Depois, vi lágrimas escorrerem-te pelo rosto, e o teu olhar tornou-se frio e sem vida. Franziste a testa como se fizesses um enorme esforço para não chorar e viraste costas. Comecei a correr e a ouvir buzinas que me perfuraram os tímpanos, mas não liguei. Só que quanto mais corria, mais me afastava de ti. Cada vez mais, e mais, e mais... quanto mais gritava o teu nome desconhecido, mais a minha voz se tornava fraca e, depois, muda. As forças desapareceram, e eu senti-me a desfalecer. Parecia que o meu esqueleto tinha-se tornado pó, e as minhas tentativas de movimento não passavam disso mesmo, tentativas. O meu cérebro estagnou e eu simplesmente não pensava. Só sentia. Queria morrer, ali, naquele momento, no meio de tudo e de todos, não sabendo bem porquê.

Estavas do outro lado da passadeira. Os semáforos devem ter ficado verdes para os peões imensas vezes. Mas eu não conseguia tirar os meus pés de onde estavam, parecia que a gravidade me tinha colado ao chão. Amava-te e sempre te amei desde a primeira vez que te vi, apesar de não me conheceres nem nunca teres reparado na minha presença em todos os lugares que te encontravas. Era como se eu fosse um fantasma. Mas de repente as peças encaixaram-se na minha cabeça: eu não era ninguém para ti, e nunca iria ser. Mas enquanto te vejo a olhar para mim... tão doce, tão sensível, tão inocente.
O coração afundou-se-me no estômago, e o turbilhão de sentimentos foi mais forte que eu. Não era eu quem mandava no meu próprio corpo. Só queria ir embora dali. Ir para casa, abrir o frigorífico, sacar daquelas garrafas tão frescas e que ofereciam uma dormência tão apetecível e afogar as mágoas. Só queria estar sozinho... ser um fantasma outra vez.
Ganhei coragem e virei costas, para nunca mais ter de olhar mais com o coração do que com os olhos para quem me rouba tudo o que tenho sem dar por isso.
Mas porque a ouvia a gritar? Eu reconheceria a sua voz mesmo que a surdez se estivesse quase a apoderar de mim, mesmo que ela estivesse a sussurrar e a vários metros de mim: fora ela que me irrompera os sonhos todas as noites depois daquele dia em que me comecei a sentir miserável. Só pensava nela. Porque continuava a tentar? Não me conhecia... Teria eu estampado na testa amo-te com tudo? Queria ser invisível, ou voltar muito, muito atrás no tempo e arranjar maneira de nunca saber da sua existência.



sábado, 27 de novembro de 2010

amanhecer desesperante

Acordei, olhei para o meu lado e não estavas lá. Mas a marca da tua cabeça sobre a almofada ainda se notava... Tinhas saído do meu lado há pouco tempo, e eu sentia-o. Mas havia algo de estranho no ar. Não era um aroma diferente, mas eu sentia o ar mais pesado, sentia isso no mais profundo dos meus dois pulmões. E isso não podia ser bom sinal. Para onde terás ido? Tomei rumo à sala: a televisão tinha sido abandonada por um fantasma fugitivo, e encontrava-se num canal desinteressante qualquer; o comando estava no meio das almofadas do sofá, como se quisesses que não o encontrasse. Segui a lógica do teu pensamento, peguei no comando e voltei a pousá-lo numa mesa mais à frente. Continuei o caminho até à cozinha, e o cenário era parecido ao da sala: alguém tinha passado ali e deixado a sua marca de uma forma assombrosa. Todas as portas dos armários estavam abertas, o frigorífico vazio tinha sido deixado completamente à mão de Deus, as cadeiras tinham sido arrastadas para trás e as cinzas da fogueira estavam espalhadas pelo chão. Parecia ter passado ali uma tempestade. Não toquei em absolutamente nada, tinha medo: não que tivesses sido tu a fazer aquilo, mas tinha medo de ser sugada por um buraco qualquer que me transportasse para as trevas ou algo parecido, e assim não pudesse ver-te nunca mais...
Voltei ao quarto, e enquanto passava pela sala notei que agora a televisão estava desligada e o comando tinha voltado a mudar de sítio. As lágrimas inundaram-me os olhos «és tu, meu amor?». Quando entrei desesperada e loucamente pelo quarto dentro, tive um vislumbre momental: parece que em fracções de segundos te vi deitado na cama com a nossa fotografia ao peito e, logo a seguir, dou por ti a saltar pela janela, com as cortinas a entrarem pela casa ao sabor do vento, o vidro da moldura da nossa fotografia partido no chão, e o teu olhar de mel sobre mim.
O teu suave, perfeito e aconchegador olhar que há anos sonhava voltar a ter sobre mim desde que partiste e me deixaste sozinha.