domingo, 28 de novembro de 2010

barreira

Estavas do outro lado da passadeira. Os semáforos devem ter ficado verdes para os peões imensas vezes. Mas eu não conseguia tirar os meus pés de onde estavam, parecia que a gravidade me tinha colado ao chão. Não pestanejei durante todo o tempo em que estive ali, que me pareceu uma vida inteira: e, verdade seja dita, podia ser toda resumida em quem estava do lado oposto da rua. Não sentia os meus olhos cansados por estarem abertos à tanto tempo seguido - eles tinham ganho vontade própria; parecia ser a primeira vez que o via, sei lá... era tão diferente. Tudo em mim estava em completo estado de transe. Tinha a sensação de que se ouviam as batidas do meu coração a quilómetros de distância, e tudo o resto era um silêncio profundo e confortável. O meu olhar concentrado era correspondido, e por longos momentos parecia que os carros que passavam no nosso meio eram miragens, ou então pequenos remoinhos loucos. Tive medo de estar a sonhar. Isto era algo que eu nunca tinha sentido, algo que eu nunca havia provado.
Era estranho, principalmente.

Depois, vi lágrimas escorrerem-te pelo rosto, e o teu olhar tornou-se frio e sem vida. Franziste a testa como se fizesses um enorme esforço para não chorar e viraste costas. Comecei a correr e a ouvir buzinas que me perfuraram os tímpanos, mas não liguei. Só que quanto mais corria, mais me afastava de ti. Cada vez mais, e mais, e mais... quanto mais gritava o teu nome desconhecido, mais a minha voz se tornava fraca e, depois, muda. As forças desapareceram, e eu senti-me a desfalecer. Parecia que o meu esqueleto tinha-se tornado pó, e as minhas tentativas de movimento não passavam disso mesmo, tentativas. O meu cérebro estagnou e eu simplesmente não pensava. Só sentia. Queria morrer, ali, naquele momento, no meio de tudo e de todos, não sabendo bem porquê.

Estavas do outro lado da passadeira. Os semáforos devem ter ficado verdes para os peões imensas vezes. Mas eu não conseguia tirar os meus pés de onde estavam, parecia que a gravidade me tinha colado ao chão. Amava-te e sempre te amei desde a primeira vez que te vi, apesar de não me conheceres nem nunca teres reparado na minha presença em todos os lugares que te encontravas. Era como se eu fosse um fantasma. Mas de repente as peças encaixaram-se na minha cabeça: eu não era ninguém para ti, e nunca iria ser. Mas enquanto te vejo a olhar para mim... tão doce, tão sensível, tão inocente.
O coração afundou-se-me no estômago, e o turbilhão de sentimentos foi mais forte que eu. Não era eu quem mandava no meu próprio corpo. Só queria ir embora dali. Ir para casa, abrir o frigorífico, sacar daquelas garrafas tão frescas e que ofereciam uma dormência tão apetecível e afogar as mágoas. Só queria estar sozinho... ser um fantasma outra vez.
Ganhei coragem e virei costas, para nunca mais ter de olhar mais com o coração do que com os olhos para quem me rouba tudo o que tenho sem dar por isso.
Mas porque a ouvia a gritar? Eu reconheceria a sua voz mesmo que a surdez se estivesse quase a apoderar de mim, mesmo que ela estivesse a sussurrar e a vários metros de mim: fora ela que me irrompera os sonhos todas as noites depois daquele dia em que me comecei a sentir miserável. Só pensava nela. Porque continuava a tentar? Não me conhecia... Teria eu estampado na testa amo-te com tudo? Queria ser invisível, ou voltar muito, muito atrás no tempo e arranjar maneira de nunca saber da sua existência.



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