quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

dez dias sobre mim (10)

Décimo dia - uma confissão.

Quando leio deixo a imaginação voar. Torno-me a personagem principal e vivo todas as emoções. Revejo-me em cada momento e penso tal e qual como diz no livro. Sigo-lhe as frases sem deixar nenhum pormenor para trás quando estou a transformar o cenário na minha cabeça de acordo com o indicado. Depois, quando mergulho naquele oceano imenso de palavras, pontos de exclamação, interrogação, finais, vírgulas, aspas e outros que tais, esqueço a vida real, esqueço os meus problemas, as minhas convicções, e deixo-me levar. Mergulho de cabeça sem ter medo de me magoar e deixo-me andar à deriva. Devoro cada acontecimento como se a fome, naqueles momentos prolongados, me fizesse um nó insuportável na garganta; quando, na realidade, eu apenas tinha fome de aventura, fome de um pouco da essência da loucura, da falta de lucidez. Simplificando: fome de ficção, no caso de alguns livros.
E, depois, acordo e às vezes preferia trocar a minha vida real por uma vida inteira nos livros. Mas, pergunto-me: Para quê? É a mesma coisa que ouvir os nossos pais dizer que são novelas e basta. Basta trocarmos a palavra novelas por livros e fica o mesmo. Porque é raro acontecer como citam nos livros. Por vezes, é demasiado perfeito. E é por isso que não é real.